sábado, 4 de maio de 2013

Começa assim,

,achando que é bom poder começar.

Começa com ela perguntando por Dindí, querendo saber se Dindí foi mesmo embora. Investigativa, pega na estante o livro com as páginas mais amareladas da biblioteca inteira, só para ver se não se desfez do livro porque ali contavam a história dos dois. Mas era livro de receitas e a pontinha da página 37 estava dobrada para que nunca nunca nunca se esquecesse com quantas claras se faz o merengue cremoso da loja de doces que fechou no ano passado, antes mesmo de fazer sucesso. 

No meio do caminho começa uma música antiga, contando histórias que são de ninguém. Mas emociona, sabe como? Coração palpita mais apressado, que agonia, não dá pra explicar. Não sei se foi o segundo verso ou a bateria que entrou atravessando ou se na hora de atravessar a rua ele apertou a mão um pouquinho mais forte porque estava vindo um ônibus ou se ela percebeu um jeito de rir que ainda não tinha reparado e gostou.


sexta-feira, 29 de março de 2013

do cóccix até o pescoço

Agora vou dizer alto que é para que fique claro.

Que eu estava confortável onde estava e o que faltava era o que falta pra todo mundo, coisa concreta, de cimento e tijolo. Já não achava mais que as coisas precisassem ser grandes e surpreendentes. Uma novidade a cada quinze dias e coragem pra acordar. Estava tudo ali.Que os amores eram coisas que a gente inventava pra se distrair dessa loucura que é a falta de tempo e que a solidão já não doía mais.Que novas cidades, de língua desconhecida, boas companhias eram suficientes para aguentar todo o resto.

 

Que fique claro que o amor continua inventado e que é inteiro uma ilusão. Que, apesar de iludido, vem assim despretensioso e se aloja como quem veio pra ficar. (Mas o amor nunca vem pra ficar). Que no início vai e vai e flui como se fosse o que sabe fazer. E de repente algo desanda, um desencontro sem fim, um ciúme que dói nos cotovelos, na raiz dos cabelos, gela a sola dos pés. Dói da flor da pele ao pó do osso. Rói do cóccix até o pescoço. E fim.


terça-feira, 19 de março de 2013

Estou pensando alto que é pra não precisar dizer.

Que no meio de tanta chuva tinha um café forte e quente e uma piada pronta, besta que só, me fazendo rir. E eu queria tanto rir, que pouco importavam os clichês e a falta de graça. Eu, que nem tenho tanto o costume de beber café e, de repente, um capuccino no fim do dia.

Que no meio da piada pronta tinha essa vontade de rir, que é nova, também a vontade de que seja tudo assim como está e o desejo de que a graça não se perca nunca, nunca, nunca. 

Que no meio do costume de beber café, a tarde. 

E que no meio da tarde, como se fosse noite, uma lembrança passando por aqui como se fosse convidada e posta pra fora aos pontapés, inconveniente. Um jeito de embolar os dedos nos meus cabelos, como não se via há anos e de dizer umas coisas e fazer umas perguntas para as quais não há resposta. 

Ainda no meio das perguntas, mais perguntas.


terça-feira, 12 de março de 2013

O ciúme

"4. Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum. "

In Fragmentos de um discurso amoroso. Roland Barthes.

sábado, 2 de março de 2013

Acabou chorare

Judith,

Vinha andando distraída pela avenida rio branco, ou perdida no triângulo das bermudas, ou tanto faz, quando, por estar distraída, baixei a guarda, a razão e um pouco o decote. Baixei também a sobriedade com uma stella artois gelada, o que deu um pouco de coragem pra tentar o red lips da revista e um delineador difícil pra burro de acertar. Ando assim, viu, cheia de feminices. Uma vaidade meio desajeitada, uma pose divertida, uma língua que não cabe na boca - escancarando uns furos logo de cara -, só pra mostrar que vai ser assim desde sempre. Acabou o tempo de tapar buracos.

Quando acordo, logo cedo, e vejo o sol ainda baixo apontando no horizonte (e é mesmo assim que nasce o dia), mesmo na pressa, da janela do carro, não dá pra deixar de achar promissor. Ver o sol nascer é um grande privilégio. Lá pelo meio da manhã uma surpresa dessas bem pequenas e deliciosas me agita o peito. Se fosse Deus, ordenava que todo ser humano deveria, por mandamento, ser surpreendido uma ou duas vezes por dia. Nem Deus sabe como a vida seria mais bonita se fosse sempre assim. 

Acabou o tempo de fechar-se para as surpresas. Acabou o tédio. Acabou chorare, ficou tudo lindo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Estou pensando alto para que você me escute. 

Está na hora de você acordar e perceber que a vida é curta. A hora de você perceber que o tempo não perdoa os que têm medo, não anda mais devagar pra que se arrependam e tentem de novo. Cresce e acredita no que estou dizendo porque já foram duas, três, quatro, cinco chances. Está na hora de você viver e sentir como é quando as mãos se alcançam no escuro porque sabem que precisam estar juntas. E quando os olhares se cruzam e as palavras se fazem desnecessárias. Está na hora dos apelidos de que ninguém desconfia e das descobertas íntimas, das piadas íntimas, da risada fora de hora que cabe direitinha na cena e torna tudo mais simples. Está na hora daquela cumplicidade de depois. E adjetivos incomuns e a vontade de ser único e de ter o outro inteiro. Passou da hora de não se importar com as pequenices e de achar graça dos defeitinhos, tão pequeno que nem são. 

A vida urge começar.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Fantasias de carnaval

Vem com uma saia de tule cor de rosa, e, por ser carnaval, não faz mais tanta questão de ser macho. Na verdade, sendo bem honesta, nunca fez. A masculinidade tem dessas sutilezas. Pra ser viril, bastava agir como o pai ensinou. Ou deveria ter ensinado. Ou sei lá. Virilidade não se finge. Puxa a menina pelo braço como se ela gostasse. Repara nos seios da freira, da Amy Winehouse, da joaninha e da vendedora ambulante. Recebe um elogio de um grandão (o do salto 30), desconfia, nunca vai dizer, mas gosta. Depois se arrepende de ter gostado, estufa o peito e ameaça puxar uma briga. Mas, tirando o salto, o grandão continua grandão. Melhor deixar pra lá. Reencontra um quase-amor antigo, cogita, no fundo, bem no fundinho, retomar uns contatos, mas acha que é contra os princípios do carnaval. Acha que o carnaval tem que ser catártico, alcoólico, farto. Amanhã, no lugar da saia, pensou numa capa vermelha. Quer ser superman. Ô, se dependesse de capa...