quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Tentando bem muito

Pra que fosse homem meu, meu mesmo, desses que cabem direitinho no figurino, sem precisar afrouxar nem apertar nada, e digo sem precisar afrouxar - mais precisamente -, tinha que falar firme, decidido, mas sem perder a doçura. Tinha que trabalhar duro e gostar bem muito do que faz, trabalhar com gosto, tesão na coisa, mas também não ser escravo. E ser flagrado olhando minhas coxas, deixar escapar uma indecência de repente, mas isso assim, enquanto me escuta falar sobre as impressões que eu tive na décima leitura do Livro do Desassossego. E me escutar falar do meu desassossego e compreender bem tudinho, acrescentar alguns pontos, quem sabe, mas também se entediar e levar um chocolate pra ver se calo de vez a boca em vez de reclamar tanto.

Pra que seja homem meu, desses que eu escolho, tem que falar firme e decidido e não pedir arrego quando eu parecer segura demais. Porque eu seguro a onda de ser isso, mas tô tentando, bem muito, esquecer um pouco a firmeza minha. Eu tô tentando, todo dia, mesmo sabendo a dança inteira, deixar alguém conduzir mansinho e me deixar errar o passo e quem sabe me rodar no meio da pausa e me trazer um susto.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Adiamento

Quando entre uma cerveja e outra ela me perguntou do que eu mais sentia falta, não pude conter a língua na boca porque aquelas lembranças estavam martelando há dias e eu só sabia pensar nas mãos dele escorregando pelas minhas costas enquanto me ouvia falar as bobagens de sempre e em como ele dedilhava nas minhas coxas, disfarçadamente, ali mesmo, embaixo da mesa. Eu contei para ela duas ou três indecências que ele costumava dizer quando ninguém mais estava ouvindo e que isso nada tinha a ver com sexo, com a trepada propriamente dita. Ele falava indecências como quem elogia a roupa. E eu tinha saudade nem era das indecências, mas da graça que eu achava desse poder que ele tinha de fazer arrepiar a perna certa na hora mais errada. Havia um momento em que eu era sempre enfática e ele sempre meio apavorado. Em que eu queria e ele fugia. E eu esbravejava mas acho que, no fundo, tinha um prazerzinho em chocar. Um certo prazerzinho em vê-lo fugidio assim, como sempre. Hoje eu até penso que ele também gozava assim, adiando.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

As armas de Jorge

Escolhi um santo bem pequeno, cujo rosto não se distingue, que é pra poder ser o santo que você quiser. Combinaria com a gente um Santo Expedito, pras causas justas, impossíveis e urgentes - como as nossas. Tinha um de cada lado e eu não acredito, mas falam que assim você está rodeado de proteção. Lembro, mesmo com tão pouca fé, de São Jorge de repente e escapolem uns versos da minha boca. Quero que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem. Tendo mãos, não me peguem. Tendo olhos, não me enxerguem. São Jorge, sim, seria um bom santo pra você carregar aí no peito. Porque Jorge foi insistente como eu mesma sou em excesso - e você, tão pouco.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Começo

Judith,

Hoje é dia três de janeiro de dois mil e doze. Muitos anos se passaram até que inventassem as palavras e muitos outros até que nós (você e eu) pudéssemos fazer (bom) uso delas. E bom é te escrever e te ler, porque você escreve sobre você mas é também sobre mim - embora você não perceba. E eu escrevo sobre mim, mas hoje é pra você.

Quando um ano começa, a gente também começa junto com ele. Eu, pelo menos, suponho que posso começar diferente e mesmo que me perca pela metade do caminho (lá pra julho), foi-se meio ano e pronto. Quem dirá o contrário? Renovo alguns planos e crio metas que sei que precisam de mais de um ano para serem cumpridas, mas a função da meta é estar lá. Vislumbro novas construções e quando rezo é pra pedir saúde, porque com saúde a tristeza e a angústia não matam nem engordam.

Remar é pra frente, por falar em chuva.
Sorte.
Um beijo.
Fernanda.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Bavardage

"A palavra falada é irreversível, tal é a sua fatalidade. Não se pode retomar o que foi dito, a não ser que se aumente: corrigir é, nesse caso, estranhamente, acrescentar. Ao falar, não posso usar borracha, apagar, anular, tudo o que posso fazer é dizer "anulo, apago, retifico", ou seja, falar mais. "

Roland Barthes,
O Rumor da Língua

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Verão de novo

Fazia um calor daqueles de fritar ovo em asfalto. Enquanto caminhava na areia, sentia o vapor quente subir pelas canelas, confirmando o verão. Cheiro era de mar (e, bem de longe, um milho verde no ponto, com manteiga e tudo). Parecia até um ano atrás, porque as personagens eram as mesmas. A praia era a mesma. O calor, acho que também. Mas alguma coisa ali tinha mudado. Um ano mais velhos, um ano mais conhecidos, um ano a mais de tudo. Há um ano, sim, tinha um encantamento naquilo tudo. Agora era a sensação de que a paixão também envelhece. E morre.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Quase

Hoje eu estava quase feliz e quase peguei o telefone pra te ligar. Quase liguei. Ia dizer que a vida era boa e que ainda guarda muitas surpresas. Ia contar que por dois números quase ganhei na loteria e que quase ficar rico já dá uma satisfação daquelas. Fui lendo os números na cartela enquanto o moço cantava as pedras e quase festejei! Imagina! Fiquei por duas! Quase fiz planos de viajar pra longe com esse dinheiro todo e te dar uma casa nova e doar um tanto pros pobres. Quase que os pobres ganharam dinheiro e roupa nova, mas eles nem sabem.

Nessas horas de expectativa a gente quase vira filósofo. Pensa um monte de coisa. Quase achei que a vida era divertida por causa dessas coisas, mas passando o susto as coisas e a vida vão voltando ao normal.

Mas foi quase.