sexta-feira, 24 de abril de 2020

Os deslimites da palavra

“Ando muito completo de vazios” é a forma como Manoel de Barros inicia um dos versos mais bonitos que já li na vida. Atemporal, como todo grande poeta, ele consegue exprimir em umas poucas linhas a sensação das últimas semanas inteiras.

Com uma produção onírica insistente, tenho acordado exausta. Nessa manhã, imediatamente após o abrir dos olhos, lembrei-me deste verso em específico, o quarto de Os deslimites da palavra, que diz não posso mais saber quando amanheço ontem. Talvez pela confusão temporal que se impõe, talvez pela revivescência sazonal de sentimentos complexos ao longo da semana. Invejei, de alguma maneira, a habilidade do poeta em listar os princípios do que chama “didática da invenção”. Manoel de Barros nos instiga a capturar a voz de um peixe ou a palavra que sirva na boca dos passarinhos ou, de uma beleza sem nome, uma palavra para compor silêncios. Nesse ponto, acho que temos algo em comum. É exatamente com o suporte da palavra que a psicanálise nos permite uma aproximação com os poetas: apanhadores de desperdício, amantes de restos.

Às pessoas que escuto, quando sinto que há nós contorcendo frases, tenho recomendado a leitura dos grandes. Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Mia Couto são ótimos desembaraçadores desse tipo de nó. Igualmente, uma boa música é capaz de liberar espaços, como um abre-caminhos para a libido. Ninguém sai ileso ao encontro entre Diadorim e Riobaldo no imenso sertão (que é dentro da gente), assim como não sai ileso a uma aliteração de Caetano. “Sou seu sabiá”, música que sei que escutou outro dia, tem o sss das asas do próprio pássaro, veja como dá para voar longe.

Com essas pequenas sugestões, feitas ali, onde a sugestão não cabe, não se trata exatamente de oferecer respostas nem aliviar a angústia, ainda que o alívio da angústia e alguma resposta tenham mais chance assim. Mas de fazer rodar o real. Com Manoel de Barros, hoje, por exemplo, pude pegar emprestados alguns recursos, nessa minha independência de algemas. E bom, a escrita veio.

Pronto: “do lugar onde estou já fui embora”.
São esses os deslimites da palavra.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Os dias, as horas

Dias vêm, dias vão, por aqui tentamos manter alguma normalidade. A começar pelo café da manhã, nem tão cedo que nos tire o privilégio de decidir a hora de despertar e nem tão tarde que nos faça esquecer a diferença entre terças e sábados. Ele me lê duas ou três manchetes e, não sei como consegue, argumenta com início, meio e fim, citando algum filósofo coreano que me faz precisar do google ainda antes das oito. Eu escuto, aceno entre um gole e outro, mas só processo a informação no almoço, quando devolvo uma pergunta que em geral eu mesma respondo. Ontem reparei que o sol já bate diferente na varanda e agora atinge apenas uma parte da mesa, onde coloquei aquelas plantas que precisam de mais luz. Noto que uma delas deu sinais de que precisa ser acomodada em outro canto. Até perceber o que era, quase afoguei a coitada. Mas não afoguei. Se tem uma coisa que tenho feito bem é conhecer as plantas. Antes não vingava uma e agora até o lírio, que andava todo sensível, está imponente, folhas brilhosas. Poderia até inventar um segredo importante sobre como fazer viver as plantas, mas não sei exatamente o que dá certo. Uma única dica é que acrescente mais terra quando a terra baixar - que é na verdade uma dica que veio da minha avó quando fingiu que olhou a foto da plantinha que eu trouxe do seu quintal e que mostrei por estar orgulhosa de (também) tê-la mantido viva. Aproveito os minutos de sol na varanda para manter alguma saúde (e vitamina D) e é pensando também na saúde que garanto uns pulos e abdominais dia sim, dia não. Finais de semana são dias não, preciso confessar. 
 
Os contatos exteriores estão reduzidíssimos e se não fossem os intervalos em que reinventamos o trabalho, estaríamos mergulhados num mundo nosso. Nada mal, eu diria. Nosso mundo tem cheiro de pão e Belchior na vitrola. Em toda inevitável solidão, é bom que alguém nos acompanhe em certas preocupações. É um verdadeiro privilégio quando se tem alguém, não que diga que tudo vai ficar bem, mas que teme do mundo as coisas que você também entende como assustadoras e, claro, a quem não falte coragem. Nada será mais como era antes. No mundo que se desenha, é preciso mais do que nunca saber ao lado de quem caminhar. Faço um pequeno exercício de me fazer presente para os queridos, e empresto minha voz recitando um trecho de livro aqui, uma poesia ali, porque se tem algo que pode ajudar a ultrapassar as amarguras é o afeto.
 
Para você, nessas palavras.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Em eco


Da última vez que nos vimos eu senti o impulso de te dizer as coisas que eu queria dizer, não que soubesse exatamente quais eram. Sei que precisava deixar que saíssem como fosse possível: incompreensíveis, desajeitadas, demasiado dramáticas. A conversa não atingiu o tom sério que eu buscava e escapulir pela tangente, chistosamente, foi o que deu. Você está de certa maneira familiarizado com as minhas hesitações e gosto de achar que percebe que alguma coisa de mais substancial ainda vem, mesmo tardiamente.
O fato é que eu estava triste. E não sabia muito bem pelo quê, mas estava triste e só. Na véspera, e talvez na semana que precedeu o nosso encontro, mas ainda assim parecia véspera, havíamos sido tomados, por aqui, por uma discussão completamente exagerada. Não exagerada em seus termos, como se nos exaltássemos, mas por motivos exagerados e surpreendentemente antecipados: sofríamos de fato pelo que poderia nos acontecer, e não por algo que já nos tivesse tocando no presente. E parece que, quanto mais falávamos, menos compreendidos éramos, num desencontro sem fim. Um muro se instalou entre nós e, cada um de lado, gritava atrapalhado pelo eco de sua própria voz. E eu me calava e era como uma estrangeira que tenta decifrar as palavras pelo som sem saber, ao fim da frase, a que se ligava de início.
Depois veio aquele sonho: visitávamos minhas moradas da infância e na medida em que revirávamos as gavetas, os armários, as memórias saltavam vivas e inteiras. O jantar do natal de 2005 cheirava como nunca, nossos brinquedos espalhados no sofá da sala, o jeito de vovó demonstrar preocupação. Tudo vivo e nítido. De repente Caetano era um irmão e dedilhava uma canção nova, compondo ali, e eu sabia que deveria gravar e não perder nada, nada, nada. Mas nem deu. Me atrapalhei com o celular. Estávamos, afinal, todos emocionadíssimos. Eu sugeri que a música se chamasse Haveria coragem. Caetano fez que talvez e eu acordei.
Haveria Coragem.



segunda-feira, 9 de abril de 2018

As horas

O real roda e põe adiante: essas são as horas da gente. É assim que Riobaldo fala do amor e é também como ele fala do sertão, o que me parece de uma similaridade assustadora. A aridez virando poesia, só nas mãos de Guimarães Rosa - e talvez nas suas. Por isso volto a te escrever.
 
Porque eu vinha caminhando pela avenida nossa senhora da penha e fui longe nos meus pensamentos. Perdi algumas certezas, o que foi oportuno, mas também perdi o tino de perguntar e isso não é bom. Não eram as respostas que importavam. Era um querer saber insistente. Eu disfarçava, disfarçava bem! Como é que se constrói um navio? Pra que servem os faróis? Como foi que se descobriu que ovos e trigo e óleo e açúcar e sal e cenouras, regados a chocolate, alegrariam tantos domingos? Eu disfarçava. Você nunca?
 
Mas não dá para falar dos bolos pelas suas reações químicas, pelo fermento fazendo tudo crescer, se antes vem um cheiro de infância e o sabor lambente de memória viva. E também não é possível pensar na maquinaria de um grande navio sem interrogar aonde levam, aonde podem levar. O que podem trazer, talvez. E nem entender os faróis mais pelas suas coordenadas do que pela dúvida sempre latente: tem alguém ali? Essas é que são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todo
 
Como é que a gente pode querer saber de navios e não querer saber exatamente quem a gente é, no inteiriço discordante? E como é que a gente pode de fato saber?

domingo, 17 de dezembro de 2017

Jão,

Como é que você consegue ser tão displicente com as coisas que são notavelmente importantes para o outro? No último verão, enquanto caminhávamos pelo bairro para ver os ipês florirem, eu tentei te dizer e você, como sempre, não ouviu. É que você só ouve o que quer, Jão. Tem essa mania escrota. Depois, é claro que fiquei aborrecida por nunca ser ouvida e ter que aturar você reclamando das mesmas coisas, as mesmas coisas, um inferno. Eu me calei e você pensou que eu estivesse consentindo, mas a minha vontade era de dizer que você sabe bem como ser um completo babaca e colocar o outro repetidamente na mesma posição, que é a de quem faz de você um pobre coitado. Foi assim há 10 anos, no caso daquela mocinha (qual era mesmo o nome dela?), e depois todas as outras que vieram depois eram a mesma, sem tirar nem pôr. Só você não vê. Outro dia li uma entrevista em que Paulo Autran falava sobre como era para ele atuar em uma peça que ficasse muito tempo em cartaz. Diz ali que era foda (Paulo Autran não disse “foda”, mas parecia mesmo foda) usar as mesmas falas, com a mesma expressão, por muito tempo. Que depois da décima vez aquilo ali parecia que tinha vida própria, com muito menos emoção. Lembrei de você com seu teatrinho. Deve ser exaustivo ser você.
Você perde tempo com bobagem, Jão. Reclamou tanto que as flores sujavam a rua toda e manchavam os carros e, enquanto reclamava, eu tava era achando lindo demais aquele rosa espalhado no asfalto. Eu tava achando graça dos motoristas ligando os limpadores e fazendo as flores voarem pra todo lado. Cheguei a comentar na hora, mas você perde poesia por bobagem. Manchar os carros.. onde já se viu? Bobagem!
Eu costumava ser menos raivosa e adorar aquelas tardes longas e cheias de trivialidades. Você se lembra de quando passamos a tarde no parque, caminhando, procurando sombra, reparando naquela criança que alimentava os patos com pipoca? Foi bom, Jão. Não era necessário falar muito e o silêncio não era desconfortável nem nada. Era fácil. Agora parece que a gente não cabe mais nos espaços, fica só a agonia e eu quero é correr. Se eu respiro fundo, você faz aquele negócio de supor que me conhece muito, muito bem. E me olha, finge que espera que eu diga da minha aflição, mas a verdade é que não quer saber de nada. Você diz que gosta das minhas histórias e de como eu reparo nessas coisas bobas, como quem dê pipoca aos patos, mas as minhas histórias servem enquanto e só enquanto for para você que eu conte. Há um tempo passei a inventar uns enredos só para ver você ser besta e acreditar que sabe de mim sem saber é de nada. Você é besta, Jão.

Oh, díos

Começando bem cedo, odeio que o telefone vibre no criado mudo enquanto o alarme toca e me desperte no susto. Iniciar o dia no susto é, na realidade, o que mais odeio. Odeio um bilhete de chefe colado na porta, precisando muito falar. Nunca se sabe o que vem. Pior ainda é flagrar o cozinheiro sendo negligente com a higiene - e ter fome. Arrisco, mas odeio. Odeio essas defesas, que mais expõem do que tudo. E repetir, repetir. Odeio não compreender o que o guri fala, mesmo ele se esforçando tanto para dizer. Só não odeio mais do que ver a menina mordendo as próprias mãos até que sangrem e eu não conseguindo acalmá-la. Odeio fantasiar por não ter coisa melhor. E ter ressaca no domingo, perdendo o dia de sol. Odeio nunca me lembrar o nome do porteiro (e que ele saiba tanto) e odeio as demoras. Todas.
Odeio o ato falho que atrapalha o disfarce todo. (Ouvir é irreversível). O constrangimento tomando conta e não tendo jeito. O 3G falhando no meio de uma música urgente, as mensagens de voz que não carregam, enviar e me arrepender e não poder voltar atrás. Odeio. Almoço desmarcado em cima da hora e eu não ter feito as compras da semana. Os panfletos colocados no para-brisa e a chuva colando tudo no vidro. O carro da frente jogando lixo pela janela, senhores idosos atravessando fora da faixa de pedestre. Odeio a agonia que dá, ver os senhores idosos tentando correr e não conseguindo e o carro vindo, o carro vindo.
Oh, Díos, os ódios.
Essa dor no pescoço que não passa e a cabeça que não para, odeio, mais do que acordar no susto, mais do que acordar no frio e ter que levantar, mais do que a água do chuveiro demorar para esquentar. Um pouco menos do que quando preciso dizer algo muito muito importante, um posicionamento firme, decisivo, momento crucial, e gaguejo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O não se sabe quando

Talvez enquanto ouvia as histórias de minha mãe sobre sua infância e ela repetiu aquela de quando, na primeira entrevista de emprego, aos treze, usava o par de sapatos, herança da herança de não se sabe quem, e com o pé direito escondia os furos do esquerdo. Se com esta manobra, além dos furos, escondia a pobreza, a fome da família, as marcas do trabalho excessivo já naquela idade, e, com a risada ao contar, escondia a dor, não sei. Algo mudou. Se não foi isso, talvez o rapaz brincando com o cachorro através do portão, naquele contorcionismo divertido, lambidas entre gretas, eu de longe quase indo lá. Uma despedida longa: vai, late, volta, lambe. E eu, de longe, quase indo lá. Algo mudou. Não sei quando. Se foi o cara de Moçambique tocando kalimba na Place d’Italie e eu gostando demais, se foram as notícias de casa enquanto estava lá, mais palavras do que memórias, mais surpresas do que motivos, mais nada. Ou se, voltando, foi essa possibilidade de ser completamente outra, sendo exatamente a mesma. E teve também aquele dia, ouvindo alguém desistir da vida aos poucos, quando quis citar Bernardo Soares pra ver se, como para mim, a poesia teria este efeito facilita-dor. E teve! É difícil saber quando foi. O novo fio branco que surgiu anteontem, um aborrecimento ou dois a troco de nada, perder amigos em plena terça, almoçar o churros da esquina sem culpa, a criança que se recusa a falar me olhar pela primeira vez, abrir o vinho francês e tomar com doritos, caminhar para o trabalho e descobrir que agora consertam brinquedos no número quatrocentos e trinta e alguma coisa da avenida nossa senhora da penha ou outra banalidade qualquer, nunca se sabe o que foi. Talvez, hoje, a pausa nos estudos para te escrever. Tomara.