segunda-feira, 5 de outubro de 2015

o canto do curió

Como num despertar, abri os ouvidos para o canto dos pássaros. Poderia ter descoberto há anos, mas só depois foi possível saber que os curiós são valiosos porque podem reproduzir uma sequência com até vinte e oito notas. O que os diferencia entre si é o tipo de sequência e o número de repetições de que são capazes. Seu canto é ensinado pelo homem e ele canta enquanto houver luz. Vive assim. Vive  vinte, trinta anos assim. Entre agosto e dezembro estão em seu auge hormonal e, portanto, lírico. Cantam para seduzir, mas cantam sobretudo para enfrentar outros machos e demarcar território. Cantam, no amor e na guerra. Um torneio começa com dezenas de pássaros em círculo, visíveis uns pelos outros, enfrentando-se com fúria e repetições incansáveis, excluindo da roda e da competição os pássaros que interrompem seus cantos, seja por fadiga vocal, seja por uma pausa distraída. O cantor determinado que piar até o fim torna-se campeão, torna-se cobiçado por colecionadores (não por fêmeas), torna-se caro. Os mais temperamentais, apesar de treinados podem frustrar bastante o seu dono. Acuados pela cantoria alheia ou simplesmente pouco entusiasmados pelo território ou pela fêmea que não conquistarão, recusam-se a cantar. Retornarão no ano seguinte meio desenganados ou serão vendidos por um preço de banana para alguém que talvez goste deles também em silêncio. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

E se de repente brotasse de dentro da gente aquela ruindade gigante, mas ruindade que a gente faz com a gente mesmo, no deixando de aproveitar os dias, no dizendo pras pessoas o que não se diz, no descuidando do corpo e do que sente.
E se contra isso que brotasse a gente lutasse todos os dias, mesmo sendo mais forte. Se fosse uma luta sem fim e ainda assim a mesquinhez prosperasse. 
E se de tempos em tempos alguma bondade existisse e num lampejo a vida viesse, durando o pouco que fosse, pra dar esperança.
Se depois retornasse pra ruindade de sempre e até no sonho ela aparecesse - diabo que abre cortinas, que trava o corpo, que range os dentes.
Se do sonho acordasse, que sorte. Seria bem vindo o pesadelo dos dias, a que se acostumasse, conhecido de sempre temor. O amor. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

As minhas meninas III

As minhas meninas agora são cada uma de um jeito. Em comum, uma dorzinha de amor ao fundo, guiando os passos pelos caminhos que em algum ponto se cruzam. Em umas, a dor é recente e densa. Em outras, uma dor que já passou ou um temor de dor futura. As que seguem sós, sedentas por não estarem mais. As que não, uma saudadezinha de saber como é. Uma diversão pura a cada pequena frustração, resgatando o velho hábito de tornar risível o que não precisa ser. Festas, muitas festas. Festas por nada. Comemorando estarmos vivas e só. Comemorando o que não vai bem, porque podia estar pior. Comemorando que se levanta depois do tombo, que lançaram um novo disco, a promoção da cerveja. 
De sexta em sexta a vida vai passando a jato. Nem vejo. Desejando viver mais. Desejando a cada uma das minhas meninas que riam. Que riam da desgraça, que riam de felicidade. Que tenham sempre mais motivos para comemorar. Que as dores sejam cada vez menores. Que não venham mais dores. Que venham outros amores, outras amigas. Que as antigas voltem. Que as de sempre fiquem. Que a vida seja diferente. Que nada mude. Desejando desejar.   

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Som

Do sétimo andar vem uma risada incontida. Uma voz feminina diz uma amenidade qualquer e ele explode numa gargalhada. Não sei se é deboche, não parece. Acho que consente com a graça. Talvez um chiste, talvez uma memória da noite anterior, talvez ambos. Participo da alegria sem querer (querendo). No 404 batem um martelo insistente. Imagino a réplica comprada na Costa Pereira de um artista capixaba que ainda não foi descoberto mas que é sucesso garantido. Quadro grande, muitos pregos pra sustentar. Ou então a derrubada de uma parede que não convém mais. Mais espaço, mais luz. Suponho uma separação. Reformas têm ar de renovação. O quarto do bebê ficando pronto, um cano estourado sem querer na hora de pendurar o porta-toalha. Da rua, uma buzina apressada me faz lembrar que a semana começou. Um estresse logo cedo, a noite mal dormida, a pressa, os tempos. Tudo junto. Ou seria uma gentileza, um aviso de pode passar, fique à vontade. Ou então quem sabe ela tenha visto um conhecido logo ali, atravessando, e não quis deixar passar sem um oi. Combinou aquele café pro fim do dia, da semana, quando der! Me liga! E ele concordou por educação ou então se viu sem reação porque era uma vontade antiga e que parecia tão improvável... 

domingo, 5 de abril de 2015

Agora eu era o herói e meu cavalo cantava um blues britânico que não sei de onde tirou. Calor, muito calor, acho que era eu. Uma agonia daquelas. Constato que memórias vêm e vão. Constato que sem elas não houve nada. Constato que tudo é ilusão. E se nem as cores que a gente vê são as cores que a gente de fato vê, o que seriam os amores? Foram um, dois, três, quatro (cores, não amores). Tento te convencer do contrário cantando que tudo é lindo, indo e vindo, além. Você acredita, mas não diria. Qualquer denegação seguinte e eu estou entregue. Atos falhos são todos sãos. Sonhos são todos meus (mas não conto). A letra daquela música famosa fui eu que fiz. Escrevi de cabo a rabo desde a primeira vez que ouvi no rádio. Era top 10 e tocaram três vezes na mesma manhã, só pra me irritar (...).

quarta-feira, 25 de março de 2015

Hoje

Hoje acordei às sete com vizinhos festejando muito alguma coisa. Imaginei que recebiam a primeira visita na casa nova, ou alguém chegando de longe em um vôo que durou a noite toda e achando bom estar em casa. Pensei ainda que o filho caçula talvez tivesse passado no vestibular e só agora, depois de oitocentas atualizações na página da universidade o resultado saísse, com o nome inteirinho ali, na trigésima sétima colocação. Pra biologia. Era a terceira tentativa. Que sorte. Já acordada, que jeito, fui à padaria e a moça do caixa estava irritada porque era a única funcionária pontual - e nem sempre isso é reconhecido pelo patrão. A fila grande fez com que ela pensasse se tinha valido a pena sair do interior, onde deixou pai e mãe, pra passar raiva logo cedo. Não foi necessário caminhar muito para esbarrar com um senhor na faixa dos 40 se transformando em palhaço lentamente. Meia cara já estava pintada de branco e os suspensórios caídos do lado e bastões seguros nos bolsos aguardando malabares no semáforo. A cara estava metade branca, metade séria. Imaginei que pensasse nas contas pra pagar e se um conhecido respeitaria se o visse assim ou então que não importavam as contas nem as opiniões dos outros. Pensei também que nunca vi palhaço feliz. Nem triste. Em essência, não existe palhaço feliz. Em essência, nem existe palhaço.

O céu estava azul, mas era um azul claro, não sei se é sempre assim. As cores estão nos olhos de quem vê. E, pra quem não vê, as cores continuam ali, mas nos ouvidos. Aí depende de um terceiro. É azul no céu e ele na terra. Mas também não sei se não é sempre assim. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Judith,

Eu queria poder dizer que tudo mudou, mas as ilusões e desilusões são as mesmas. Diante da vida, pra quem não é desistente, resta aguentar. 

Você me pergunta, mas sabe o quanto me custa sentir as raivas e os ódios e tudo isso que arde nos olhos. Não te respondi, mas elas existem. Eu as escondo (as raivas) até onde posso, numa elegância que corrói o estômago e detona as unhas de todos os dedos. E quando vêm, vêm com a voz tropeçada e a velocidade não acompanha a taquicardia sufocante que já estava lá. Taquicardia sufocante. Juro. E eu deixei de falar, tantas vezes, deixei de falar que não é justo se deixar levar pelo medo. Deixei de falar que não é justo desgostar da gente. Deixei de falar tanta coisa, Judith. Se pondero as palavras, a vontade é de gritar pra que ouçam. Ouçam lá da cozinha, ouçam lá de fora, no outro quarteirão. Deve caber pra quem passa lá longe também, porque a covardia tá na gente toda. 

...