sábado, 2 de março de 2013

Acabou chorare

Judith,

Vinha andando distraída pela avenida rio branco, ou perdida no triângulo das bermudas, ou tanto faz, quando, por estar distraída, baixei a guarda, a razão e um pouco o decote. Baixei também a sobriedade com uma stella artois gelada, o que deu um pouco de coragem pra tentar o red lips da revista e um delineador difícil pra burro de acertar. Ando assim, viu, cheia de feminices. Uma vaidade meio desajeitada, uma pose divertida, uma língua que não cabe na boca - escancarando uns furos logo de cara -, só pra mostrar que vai ser assim desde sempre. Acabou o tempo de tapar buracos.

Quando acordo, logo cedo, e vejo o sol ainda baixo apontando no horizonte (e é mesmo assim que nasce o dia), mesmo na pressa, da janela do carro, não dá pra deixar de achar promissor. Ver o sol nascer é um grande privilégio. Lá pelo meio da manhã uma surpresa dessas bem pequenas e deliciosas me agita o peito. Se fosse Deus, ordenava que todo ser humano deveria, por mandamento, ser surpreendido uma ou duas vezes por dia. Nem Deus sabe como a vida seria mais bonita se fosse sempre assim. 

Acabou o tempo de fechar-se para as surpresas. Acabou o tédio. Acabou chorare, ficou tudo lindo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Estou pensando alto para que você me escute. 

Está na hora de você acordar e perceber que a vida é curta. A hora de você perceber que o tempo não perdoa os que têm medo, não anda mais devagar pra que se arrependam e tentem de novo. Cresce e acredita no que estou dizendo porque já foram duas, três, quatro, cinco chances. Está na hora de você viver e sentir como é quando as mãos se alcançam no escuro porque sabem que precisam estar juntas. E quando os olhares se cruzam e as palavras se fazem desnecessárias. Está na hora dos apelidos de que ninguém desconfia e das descobertas íntimas, das piadas íntimas, da risada fora de hora que cabe direitinha na cena e torna tudo mais simples. Está na hora daquela cumplicidade de depois. E adjetivos incomuns e a vontade de ser único e de ter o outro inteiro. Passou da hora de não se importar com as pequenices e de achar graça dos defeitinhos, tão pequeno que nem são. 

A vida urge começar.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Fantasias de carnaval

Vem com uma saia de tule cor de rosa, e, por ser carnaval, não faz mais tanta questão de ser macho. Na verdade, sendo bem honesta, nunca fez. A masculinidade tem dessas sutilezas. Pra ser viril, bastava agir como o pai ensinou. Ou deveria ter ensinado. Ou sei lá. Virilidade não se finge. Puxa a menina pelo braço como se ela gostasse. Repara nos seios da freira, da Amy Winehouse, da joaninha e da vendedora ambulante. Recebe um elogio de um grandão (o do salto 30), desconfia, nunca vai dizer, mas gosta. Depois se arrepende de ter gostado, estufa o peito e ameaça puxar uma briga. Mas, tirando o salto, o grandão continua grandão. Melhor deixar pra lá. Reencontra um quase-amor antigo, cogita, no fundo, bem no fundinho, retomar uns contatos, mas acha que é contra os princípios do carnaval. Acha que o carnaval tem que ser catártico, alcoólico, farto. Amanhã, no lugar da saia, pensou numa capa vermelha. Quer ser superman. Ô, se dependesse de capa...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Burocracias

São 19h e já não me lembro o que serviram no almoço. Ou será que foi ontem que almocei? Não sei. Hoje cedo, bem cedinho, o primeiro pensamento que me veio foi o de não me esquecer de ligar para a loja de livros e perguntar das demoras todas e se ali não sabiam que quando queremos ler Guimarães é sempre urgente. E também se não dá pra trocar aquele do Galera por um clássico, porque ando com preguiça de novidades. Pensei também se seria verdade ou se teria sonhado com a compra de umas fantasias. Engraçado falar compra de fantasias. Podia mesmo ser possível comprar algumas e guardar a nota fiscal para o caso de não se realizarem. Mas as fantasias existem para serem fantasias e só, e não para se realizarem. Que bobagem. 

Umas duas ou três vezes ao longo da tarde, emprestei meus ouvidos e presenciei uma dor. Era das grandes. Pensei rapidinho que se começasse tudo de novo e escolhesse tudo de novo, que tal seria ser dona de sorveteria e ver de pertinho alguma satisfação, só pra me certificar de que existe. Mas antes que pensasse em outra opção, quem sabe o cultivo de orquídeas, veio outra dor atropelando e concluí que gosto mesmo dessa coisa de tentar tornar digno o sofrimento humano e, por isso,com sorte, às vezes poder até vê-lo diminuir...

Ia me emocionar, quase foi, mas já estava atrasada. Bebi água hoje? Jurei que seriam 2 litros todos os dias, mas é difícil e esses filtros não são confiáveis. E no caminho pra casa senti falta de escrever. O sinal demorou tanto a abrir que puxei uma caneta e esbocei um trecho: "ele escancara as minhas incoerências todas..." e então buzinaram atrás, a fila andou e a idéia se foi.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Torpedo

Ele se assustou quando soou o alarme de mensagem no celular e o nome que aparecia era o dela porque pensava ainda há pouco que o sinal de telefonia anda uma bosta em toda a cidade e que se alguém tentasse se comunicar, fosse a mãe dizendo que deixou a sopa pronta na geladeira, fosse uma emergência do trabalho, ninguém o encontraria. Pensou ainda que nos nossos tempos dá uma angústia ficar incomunicável e que nem se lembra de como era quando as pessoas esperavam o fim do dia para saber as novidades. Não que o jornal das oito fosse menos parcial naquela época, mas é que as pessoas conversaram mais e direito e por acúmulo. Assim as informações eram mais concisas e importantes. Agora, que todos mandam torpedos, etc, a todo instante, nada é novo. Até quando acorda seu celular já recebeu as novidades da noite. Nem precisa chegar no trabalho ou encontrar um amigo na hora do almoço. 

Mas nesse dia, que a mensagem era dela e num momento em que ele jurava que ela estaria dormindo ou, se não estivesse dormindo, que estivesse bem divertida em uma festa pouco divertida da cidade, ficou surpreso. Acho que gostou um pouquinho da surpresa, porque fazia tempo que isso não acontecia. A frase dela veio meio cortada, indicando que ela pudesse estar um pouquinho bêbada ou que o sinal de telefonia continuava uma bosta. Mas a frase seguinte, mesmo sem pé nem cabeça, talvez dissesse pra ele que ela ainda pensava nele mesmo enquanto se divertia nas festas da cidade, que podia até ter conhecido alguém simpático mas que gostaria que ele estivesse ali pra entender aquela tirada espirituosa que ela sempre tinha quando bebia, que ela sentia ciúme do que ele pudesse estar fazendo longe dela e que queria só ser lembrada e testar se teria resposta.
Era isso ou ela estava bêbada.
Ou a telefonia anda uma bosta.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cegos do castelo

Novo instante: vejo antecipadamente o que vai se seguir e é nada. Uma pequena história passada se renova já. Renovada, ainda assim é a mesma? Pareço não ter visto o ponto exato em que tudo se deu e agora é tarde para entender o mistério das pequeníssimas mudanças. Pequeníssimas mudanças não são mudanças propriamente ditas. São presságios, como sabemos. Fala-se sobre castelos de cartas, o que há sob os castelos de cartas e, de repente, descobre-se que, destruído o castelo, ficam as cartas caídas e só. Vontades de castelo, talvez. Antes as vontades eram fundamentais. Sem elas, nem as cartas nem os castelos: não haveria nada.


Mas há coisas sobre as quais não me é permitido falar porque não sei como se dão. A ignorância é a única verdadeira limitação. E suposições também são presságios, mas dessa vez de verdades inventadas. Será que já existem verdades que não o sejam?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A gente se ilude dizendo já não há mais coração

Eu sei que você sabe, mas vamos (nos) repetir: o furo sempre esteve ali. E não é pra te chocar, mas sempre estará. Acho bonito que persista sempre esse furo, no peito. Acho que também tenho (mas não tem ecocardiograma que confirme). Falando aqui sobre a volatilidade das paixões, de repente imaginei sem querer as pessoas que passam pelas nossas vidas escorregando por este buraco e caindo longe. 

Será que é preciso um coração fechado para amar?