Mandei tatuar bem forte e em negrito, que é por não confiar na memória e por saber que a felicidade (mas quase disse falicidade) faz a gente pensar diferente.
Escrevi em mais de uma língua, sem erro de sintaxe nem nada, que é pra não ter dúvida.
Botei acentos os mais variados, que é pra dar altura adequada às sílabas que merecem respeito e pra você saber que ali eu gritei mais forte pra você ouvir.
Tatuei também em desenho, que é pra quem não sabe ler não poder dizer o contrário.
Escrevi em letra de fôrma e em letra de mão e em letra de digitado e em arial, times new roman, itálico e sublinhado, que é pra todos os gostos.
Mas tapei com a blusa. Ninguém leu.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Nota sobre o inesperado n.4
Eu achei que seria muito difícil voltar a sentir aquelas coisas.
Depois, achei que eu fazia ser muito difícil voltar a sentir aquelas coisas.
Então descobri que não: é mesmo difícil.
Taí o inesperado.
Depois, achei que eu fazia ser muito difícil voltar a sentir aquelas coisas.
Então descobri que não: é mesmo difícil.
Taí o inesperado.
sábado, 15 de outubro de 2011
Nota sobre o inesperado n.3
Eu comecei uma conversa à toa, só pra sair de um silêncio de um dia inteiro, mas sem querer (querendo) eu perguntei sobre o mundo e as coisas do mundo e os deuses. Quis saber se existe mesmo ou se é coisa do homem, achar que tem passado, que tem futuro, que tem vida, que tem planos, que tem afetos. Nunca tinha perguntado assim. Acho que estava precisando acreditar.
domingo, 9 de outubro de 2011
Nota sobre o inesperado n.2
Tocava uma música alta que eu não sabia cantar. De repente aparecia você, fantasiado de bom moço, cheio de amigos imaginários, mirando alguma coisa atrás de mim e sorrindo como quem consente. Quis olhar para trás, mas não. Aqui está o inesperado.
sábado, 8 de outubro de 2011
Nota sobre o inesperado n.1
Seguia pela Avenida Nossa Senhora da Penha e marcava no relógio bem o meio do dia. Havia sol. As pessoas andavam tão depressa que não notavam a surrealidade que era aquilo: bolhas de sabão tomando o ar, como se fossem pássaros, numa incrível dança. Algumas entravam no carro, fazendo motoristas atentos se desconcentrarem do trânsito por um instante, enquanto outras desciam depressa e se arrastavam na beira do chão, trombando com o calor até o estouro.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Do buraco
Havia um buraco e só. Tentei treze mil novecentas e setenta vezes encontrar alguma coisinha de nada que pudesse esconder o furo. Não pra sempre, porque disseram que a função do buraco é estar aberto, mas por uns instantes, sabe como? Até que a música, a viagem, o amor, acabassem. Mas não tinha jeito. O buraco estava ali, e eu, no buraco sem fundo, poço de mim, chata toda vida, descontente toda vida, esperando um milagre (ou um doce) que trouxesse aquela felicidade de quando não se tem muito no que pensar.
Foi então que me disseram que podia tentar bordear o buraco, falar dele, coisa e tal. Monotemática fiquei. Falar de buraco, veja bem, dá a impressão de que vai se esburacar o outro, o mundo, a própria palavra.
Eu queria palavra cheia, mundo maciço, outro intacto. Parei de falar um pouquinho, deixei o buraco (e a palavra e o mundo e o outro, quem sabe) me levar, fingi que dá.
Acho que finjo bem.
Foi então que me disseram que podia tentar bordear o buraco, falar dele, coisa e tal. Monotemática fiquei. Falar de buraco, veja bem, dá a impressão de que vai se esburacar o outro, o mundo, a própria palavra.
Eu queria palavra cheia, mundo maciço, outro intacto. Parei de falar um pouquinho, deixei o buraco (e a palavra e o mundo e o outro, quem sabe) me levar, fingi que dá.
Acho que finjo bem.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Me(i)a Culpa
José,
Não adianta vir se for pra vir com essa desesperança toda. Aviso logo que de dor assim eu enchi um álbum e nem por isso fechei o peito nem maldisse a vida nem me tranquei a sete chaves pra não ver lá fora.
Se é pra dizer que não sirvo, também pode botar a palavra de volta pra dentro que não faço questão de saber. Deixa eu pensar que é trabalho demais, doença na família, que são as conexões, veja bem, que é mais desculpa e só.
Se vier, José, venha por inteiro e pronto e querente e bote fé que a coisa vai. Se vier, venha dizendo que é pra sempre, que é tudo, que é mais.
Porque se depois não for, José, meia culpa pra mim, meia culpa pra você e pronto.
Ponto final.
Não adianta vir se for pra vir com essa desesperança toda. Aviso logo que de dor assim eu enchi um álbum e nem por isso fechei o peito nem maldisse a vida nem me tranquei a sete chaves pra não ver lá fora.
Se é pra dizer que não sirvo, também pode botar a palavra de volta pra dentro que não faço questão de saber. Deixa eu pensar que é trabalho demais, doença na família, que são as conexões, veja bem, que é mais desculpa e só.
Se vier, José, venha por inteiro e pronto e querente e bote fé que a coisa vai. Se vier, venha dizendo que é pra sempre, que é tudo, que é mais.
Porque se depois não for, José, meia culpa pra mim, meia culpa pra você e pronto.
Ponto final.
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