sábado, 28 de julho de 2012

E como é que o amor desponta?

sábado, 30 de junho de 2012

As bailarinas de Degas não esperam

Pode ser que eu esteja falando cedo demais, mas eu duvido que as bailarinas de Degas esperassem tanto. Aposto que com elas era diferente e que quando entravam no palco, nem saltitavam tanto porque naquela época o Bolshoi já tinha revolucionando a arte do dançar e todos sabiam que um bom balé se faz com delicadeza. 
Eu suponho que no fim do primeiro ato as bailarinas de Degas já contavam com flores espalhadas por todo o camarim. E sabiam que seriam esperadas em todas as portas do teatro e dos pequenos anfiteatros e nos fundos dos calabouços e inferninhos da época. Não por serem bailarinas, simplesmente. Mas porque tinham uma beleza inesperada e porque enquanto dançavam não olhavam para os lados. Rodopiavam quando a melodia ficava mais intensa e fingiam que não estavam sendo vistas.
E fingir que não eram vistas era tudo o que deviam fazer para que a platéia inteira, mulheres, homens, senhores acompanhados e crianças de colo, todos olhassem mais e mais e mais, tentando flagrar uma bailarina distraída que voltasse seus olhos para os olhos de alguém e sorrisse sem querer ou errasse o passo por descuido e desatenção.


domingo, 24 de junho de 2012

Uns dizem fim, uns dizem sim.

O terceiro que chegou, como quem chega do nada, não sabe meu nome direito, não fala coisa com coisa, entona a sílaba errada de cada palavra, atravessa a madrugada com uma pergunta fora de hora e me tira um sorriso sem eu perceber. E pra além do sorriso, me tira um pouco aquele rumo de sempre e eu faço diferente dizendo que não. Eu faço,dizendo que não. Eu digo não, mas é sim sim sim e todo mundo sabe. Eu não tento mentir. (Mentira). E se nos ocorre olhar pela janela, vemos o dia amanhecer e a vida acontecer e parece banal.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vermelho

Nem todo vermelho é de sangue.
E eu digo porque sei. E eu sei porque vi outro dia o vermelho nos cachos de uma moça que flutuava ao andar. Arrastava um balanço despercebido e pensava em tantos outros tons que não viu que do lado dela o senhor de paletó fez que ia atravessar quando o sinal ficou vermelho para ele e verde para os outros. Recuou depressa, meio trôpego, risonho e envergonhado - porque o recuo pareceu-lhe, por um instante, uma espécie de dança.
Mais à frente, o cachorro botava a cabeça para fora da janela e o vento balançava-lhe as orelhas. Abria a boca de um jeito que mais parecia um sorriso. E,virando a esquina, o vendedor de guarda-chuvas gorava o sol com suas superofertas. A precavida senhora de vestido florido comprou a sombrinha mais colorida e fez de bengala porque não cabia na bolsa.Os cachos vermelhos desbotavam de tempos e tempos e eram reafirmados, revivos com a tinta de sempre, misturada com um pouquinho da outra para melhorar o brilho e creme, creme de pentear.

sábado, 12 de maio de 2012

Permita que o amor invada sua casa, coração

Ganhei um Santo Antonio com menino e tudo. Brinco de tirar o menino dos braços do santo pra que ele veja como é bom perder alguém. Vamos ver se assim ele se compadece e traz uma pessoa amada em três dias. Eu disse uma. Pode ser qualquer uma, desde que de bom coração. E se não for pedir muito, que já tenha lido alguma coisa de Machado. E se ainda não for pedir muito, que tenha bom gosto musical (ou fones de ouvido). E se não for abusar demais, que seja íntegro, porque sem integridade não dá. E, vai me desculpar, que saiba o que quer da vida, que faça planos pro futuro, que goste de viajar, que tenha bons modos à mesa, um bom português, um trabalho honesto, dentes bonitos, bom humor e...

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terça-feira, 17 de abril de 2012

Pra que, tendo pés, não me alcancem.

São Jorge, com dragão e tudo, preciso de proteção. Tá ouvindo? Tô pedindo e é com fé, porque daquele canto ali ela me fulminou com aqueles olhos. Caçoou de mim e fez mandinga com meu nome pra tudo dar errado. Eu fiz que não vi. Diz que macumba existe só quando a gente vê, não é? Então eu olhei pro lado na hora, fiz saravá três vezes, pendurei o galho de arruda atrás da orelha, a espada de São Jorge atrás da porta (e ela tem que continuar ali, viva e verde).

Não sou santa, o senhor bem sabe. Mas também não sou das piores. Mal pros outros nunca fiz e, se tirar a média, até ajudo muita gente. Tenho complacência por quem sofre e digo sempre que tudo vai dar certo, que é pra ter calma - e essas coisas que as pessoas boas dizem.

Mas ela me estrangulou de longe e olhou feio e xingou três gerações daqui pra trás. Achei que meu cabelo ia cair e o útero secar. O ombro pesou, meu santo.
Sai pra lá...

terça-feira, 27 de março de 2012

Contracapa

Disseram um dia que se Deus existe, mas se existe de verdade, ele brinca com a gente. E agita os dedinhos num emaranhado de fios, fazendo a gente toda, sem distinção, de marionete. É homem, é mulher, é criança, todo mundo se agita quando o polegar levanta e vai pro lado no ritmo do indicador. E cai, porque Deus é desses. E quando dizem que Ele faz a gente toda de marionete, é pra dizer que alguns acasos são sacanagem pura. É diversão do demo. É o destino sendo cruel só por ser, pra fazer graça.

São essas brincadeiras sacanas que fazem às seis da manhã tocar a nossa música, uma música que nem se ouve mais, que nem está na moda, de um cantor que já até morreu. E ao meio-dia, a sobremesa no trabalho (onde nunca tem sobremesa) é aquele doce de amendoim, igualzinho ao que fez você quase morrer de tão empolado. E à noite, na portaria do prédio, chegar de surpresa aquele livro que estava emprestado há anos e que já tinha até sido substituído e o novo exemplar já tinha até sido perdido também. E na contracapa do livro, com a sua letra, aquele amor que seria pra sempre e o primeiro livro de muitos, de toda uma vida que seria vivida assim, cheia de dedicatórias.

Deus é isso, que faz a gente lembrar.