sábado, 12 de novembro de 2016

Presságios

Minha mãe sempre diz que é possível saber quando vai chover pelo vapor dos alimentos quando saídos do forno para a mesa. Eu chamava isso de presságio, mas não é bem um presságio, são os pequeníssimos sinais que antecedem as coisas. Basta ter olhos para ver. 

Sinais, como quando assisti ao Amélie Poulain pela primeira vez e amei, quis que João assistisse, mas antes que ela encontrasse a caixinha no esconderijo, ele dormiu. Ou então quando durante uma conversa José falava dos pretos e baixou o tom de voz para falar pretos. Antes que ele terminasse de falar, eu percebi que seu tom de pretos não era como o de dona Canô falando de Gil a Caetano ~ venha ver aquele preto que você gosta ~ e, além disso, percebi que não conseguiria fingir que não ouvi e levar a vida ao lado de alguém que não goste de pretos e, principalmente, que tenha a cor da pele como critério para gostar ou não gostar de alguém. 

Sinais, como a minha taquicardia pela manhã quando estou me permitindo amar e nem tinha percebido. (Neste caso, acabo achando que é sinal de que deu a hora de fugir, mas um dia isso muda - é o que o Paulo diz). 

Da última vez, você convocou os ares de decisão (ou tudo ou nada) e mesmo para mim ainda é enigmática a razão pela qual embarquei e saí decidindo coisas. Enquanto espelho, o olhar do outro é um perigo. Basta um deslocamento e a gente já não se reconhece mais. A imagem se quebra, é estilhaço na estrada: não é nada, não é nada.

Diante dos últimos acontecimentos a escrita ficou em suspenso e não saía nada. Mas segui seu conselho, vim falar da prosa dos dias, da concretude da vida, pegar o peso do mundo e fazer dele peso pra papel-onde escrevo estas palavras. 

domingo, 9 de outubro de 2016

Quereres

Enquanto nina Luísa pela sala, Paula entoa baixinho um meu chapéu tem três pontas, três pontas tem o meu chapéu, vacilante em relação ao número de pontas, é verdade, mas com uma doçura maternal já conhecida por nós. Naquela canção, estou em casa. 
 
A voz de mamãe surge nas nossas memórias e enche a sala, preenche tudo. A melodia acalenta Luísa num instante - voz de sereia, mas não só nela o efeito maternante se dá. Estamos as duas, as três, seguras, numa história de cuidado e cheia de afetos que faz de Paula, agora, uma mãe que sabe aninhar um filho em seus braços, faz de mim (por enquanto) uma mulher que sabe a importância deste canto e empresta a voz, os ouvidos a quem deles precisa, numa função que, neste caso, não é materna, mas de um terceiro acolhedor. Ali, no só-depois, todas as escolhas fazem sentido, como se fosse possível dizer que nascemos para isso, ou para aquilo.
 
Tenho me aprofundado nas teorias que falam de amor, porque descobri que o amor pode tudo, até ser estudado. Que dos laços com o Outro a gente é feito e sem eles a gente se perde da gente, quando não morre. Que o corpo da gente tem mil palavras por todo canto, e eu grifei o resumo delas em tinta preta, letra de mão, pra nunca me esquecer. Quereres. Plurais, muitos, pequenos ou gigantes, tanto faz. Quereres, que sempre que leio confundo com Que queres?, o que não é à toa. 
 
A gente não sabe, a gente não sabe. E é por não saber que a gente vive arriscando adivinhar, a gente vive arriscando, a gente vive.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O que aprendo com Angela

Encontro Angela semanalmente após o almoço. Ela se levanta meio lenta (a pressa é um problema todo meu) e me recebe com um sorrisão, pergunta se já almocei. Angela me descreve sua marmita do dia, seu peristaltismo (mas não chama assim) - pra ver se finalmente entendo que nosso horário de sempre é péssimo-, e me mostra as últimas cores lançadas. Quer saber se meu humor está para o azul claro da revista. Digo que não. Nude. Ela ri. 

Angela me mostra a foto de seu neto e de suas filhas adolescentes, que agora vendem Avon - caso eu queira conferir as ofertas. Já conheço sua história de luta e de como fez para vir da Bahia sozinha com as meninas depois que o marido foi embora. Mulher forte. Pergunto pela nona vez, apesar de saber, de que cidade mesmo Angela veio, só porque gosto de como ela resgata seu sotaque lindo para me dizer. Tem que ir lá, Nanda. Terra boa!

Angela faz unhas e massagens. Agora também está aprendendo a fazer drenagem linfática, e está encantada pelo fato de o corpo acumular e expelir toxinas. Acha o corpo uma máquina das mais porretas. Eu concordo. Ela é muito boa no que faz. Mais de uma vez falei que ela merece um espaço só dela, que aquela porcentagem não é justa - mas a pressa continua sendo toda minha. Angela diz que tudo tem seu tempo e que, acabando o curso de cupcake da caçula, a renda vai aumentar. Se pudesse, vivia era de fazer cocada. Tem mão boa pra isso. Salivo ouvindo sobre os sete ou oito sabores mais vendidos. 

Conto para Angela minhas últimas aventuras e ela se esquece das cutículas, rindo-se  toda e dizendo quantos ôxes são possíveis de se ouvir numa aventura tão breve. Ela diz que a mulher precisa ser amada, senão o corpo enferruja e isso não é bom pra saúde. Por falar em saúde, achou minhas mãos pouco hidratadas e recomendou beber mais água. Ou suco. Refrigerante não, que acumula toxinas.

Baixinho, conta que ela mesma tem encontrado um galego depois das dezoito e que tá é bom. Comemoro, meio boba, querendo ver Angela bem, e ôxe! Manda eu deixar de ser besta. Aquilo ali é só farra. Do marido, só sentiu falta da máquina de ralar coco. Tem que provar dessa cocada que eu sei fazer. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Para Malu Chegar.

Maria Luísa, minha sobrinha
Você ainda nem nasceu e já está na família há meses. Eu disse meses, mas talvez esteja há anos, muitos anos, quando Paula e eu brincávamos de boneca e não sabíamos que tratava-se de uma antecipação. E se não for de tão longe, será pelo menos desde que, passeando pela Praia de Itapoã, seus pais brincaram com alguma outra criança suja de areia, precisando de protetor solar, enfrentando o medo do mar.
O mar. Você vai conhecer o mar logo, logo. Talvez antes de aprender a andar, já terá aprendido sobre as profundezas, sobre desviar das ondas, sobre fugir dos perigos. Preste atenção, ensinamentos de mar são importantes e serão úteis por toda a vida. Até que tenha coragem para enfrentar os perigos sozinha, não faltarão mãos enlaçadas às suas, nem o olhar atento de vó ali da beira, pronta.
E por falar em perigos, Malu, não se assuste com o que vou dizer: serão muitos. A vida é cheia deles para quem se arrisca. Sua mãe diz que você é delicada, porque ali de dentro você se faz sutil em sua presença. Delicada é bom. Que a delicadeza não te falte nunca, no olhar para as pessoas, nos seus movimentos, nas palavras que saem de sua boca. Que seja possível manter a delicadeza mesmo quando a vida exige que a gente berre. E que seja possível ser firme sem perder a doçura e forte sem perder a graça.
Que tenha saúde, Malu, saúde sempre. E que tenha alegria com coisas simples: vendo uma fileira de formigas, o sol se pondo no horizonte, pintando os desenhos do seu pai, sentindo os cheiros que saem da cozinha da vovó.
Aqui a espera é muita. Estamos cheios de planos e ansiosos para ver você crescer e ter os seus.
Amor,

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ilibada


Você pareceu surpreso quando, naquela madrugada, chegaram mil mensagens com planos, muitos planos, minha afobação e pressa, um desejo de concretude das coisas que até então estavam só na imaginação. Interrogou meu sono, muito querendo saber o que me faz perdê-lo, e disse que não esperava ver-me assim, vulnerável. Ilibada, foi a palavra que você usou. Diga você, que é ilibada, o que te tira o sono.
Vou te dizer uma coisa, vou te dizer muitas coisas, mas não pense ser uma tentativa de te convencer de que sou ou de que não sou, seja lá o que for. Estive apenas tentando compreender em que momento desta minha loucura toda ainda consegui, sem saber que o fazia, parecerilibada ou, que seja, do tipo que não se afeta com as coisas.
Ontem, por exemplo, o noticiário mostrava a cena em que uma criança síria era resgatada dos destroços de uma explosão e parecia resignada. Uma criança resignada, nos destroços. Isto me tira o sono.  Por que não chora, esta criança? Quem se acostuma ao desamparo? Eu não.
Por falar em desamparo, na noite passada tive de novo aquele sonho. Sonhos de repetição são sempre perturbadores. Estamos todos ali, procurando uns aos outros em meio ao caos, à espera de um tsunami que sabemos fatal, e que já vem, e não nos encontramos. Sempre falta alguém. E eu corro, eu corro demais, e não há esconderijo que dê conta e não estamos juntos. Que diabos é isso, além do óbvio?
E para mostrar que nem precisa de tanto, roí as unhas por causa de uma reunião que nem chegou a acontecer. Pelas coisas que tenho a dizer, mas ainda não é a hora. É preciso ser sutil e muito ouvir para saber a melhor maneira de falar. Ouvir é uma arte.  Fazer-se ouvir é um desafio.
E você? Dorme bem?

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Só o precinecessário

Se não escrevi antes foi porque não achei justo endereçar a você as minhas agonias, fazer você ter que lidar com elas, reler minhas frases quase sem sentido, supor sensações novas, reconhecer antigas, dar resposta ao que eu sei que não tem resposta. E não precisa ter. Vamos combinar assim: faremos disso um monólogo e seremos espectadoras de nós, como na verdade é a única possibilidade. Você me diz da sua vontade de ser outra, e eu nada posso fazer par ajudá-la a não ser dizer que seja. Que acorde promíscua um dia e dê telefonemas tanto-faz-para-quem. Que sinta, às 10h30, uma vontade súbita de rezar, entre na primeira igreja que cruzar o seu caminho e faça promessas de nunca-mais-todas-as-coisas. Que decida, antes de dormir, chorar mais e sem pudor. E acorde achando bobagem demais. 
 
A essa altura você já sabe que tu não te moves de ti, não importa o que faça. Mas não, não fique triste! Do mesmo lugar é possível esticar os braços e parecer mais alta. Abrir os braços, oferecer um abraço. Agachar e se esconder. Do mesmo lugar é possível gritar forte e fazer-se ouvir. É possível, juro. Sem mover nem um pé do chão, é possível retocar o batom e descer o decote. É possível fazer coisas. Sem mover-se um centímetro sequer, é possível ofender alguém. E, entre tantas outras coisas, é possível amar. Amar bastante. Amar até demais. Sendo você mesma, é muito possível se reinventar.
 
Mas antes, é precinecessário que se perdoe. Perdoe suas manias irritantes, sua dificuldade de fazer contas, sua impaciência com os mais jovens, sua intolerância com outros gêneros musicais, seus furos. Deixe para lá o rigor, perdoe se o mau humor dominar a manhã. Acontece. Perdoe suas coisinhas, é muito importante que perdoe suas coisinhas. Não deixe de perdoar também essas ideias que você tem de infinito, de profundezas dos átomos e de partículas subatômicas. Você não precisa de nada disso. Deixe para os físicos, tem razão. 
 
Pensar, mesmo no infinito, não te leva muito longe e ainda te distancia do que precisa ser visto e está perto, ao alcance dos olhos: as castanheiras estão fazendo muda e para andar nas calçadas é preciso mergulhar os pés nas folhas. É preciso mergulhar sem medo de bichos e buracos, para atravessar as castanheiras. E logo mais estão os ipês, que me lembram a páscoa e estamos em agosto. Ao alcance das mãos está minha sobrinha, soluçando, e ainda nem nasceu. Ao seu lado, picaria se fosse cobra, a vida acontecendo, a gente querendo, querendo, não cansando de querer. 
 
Preste atenção. É preciso estar parado para ver bem.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Do pior


Meu amigo, a vida não é só coisa boa. Vamos falar disso também. Vamos falar da solidão, vamos falar sobre precisar falar e não ter quem nos ouça. Vamos falar da disputa entre os amigos, mesmo os que torcem uns pelos outros, da criança que atravessou correndo na frente do carro e da taquicardia de susto. Vamos falar do pior: perceber que foi substituído e não fez falta. Aquele cansaço e ainda ser quarta-feira. O corte de cabelo que deu errado e você precisando se sentir bem. Sair da vida de alguém que queria que ficasse. Vamos falar da gente sendo rígido, tentando sempre manter uma coerência exagerada sobre tudo. Vamos agir imprevisivelmente, soltar uns gritos por aí, ter ressaca moral em seguida. Beber demais, perder a saúde, perder o bom senso, perder amigos por bobagem. Vamos contar que sentimos saudade do que nem aconteceu, essas expectativas imbecis. Vamos ter expectativas. Vamos nos frustrar. Vamos ter expectativas novamente. As mesmas. Dormir com alguém que nem nos interessa. Vamos lembrar de outro bem no meio e sentir saudades.  Vamos estragar tudo. Dizer para alguém que está de saco cheio, sem escolher tanto as palavras. Vamos falar rasgado, ser escrotos, magoar as pessoas. Ou então vamos sumir, não dizer nada, culpar o tédio, o trabalho, o capitalismo, o direito de não querer. Vamos culpar o outro. Vamos contar os nossos medos, confessar que rezamos na hora do aperto mesmo sendo ateus, perder a fé de vez. Vamos duvidar de tudo. Desacreditar das pessoas, achar melhor que tudo acabe. Vamos fazer promessas que sabemos que não vamos cumprir. Vamos sustentar uma opinião por orgulho, pra não dar o braço a torcer, só pra irritar. Perder o ânimo de levantar da cama e ter que levantar mesmo assim. Querer café e esquecer que estava acabando. Comprar um doce e estar mofado. Vamos às festas e não ver graça nelas. Achar a música alta, ter dor nas costas, supor que a roupa não está adequada. Cometer gafes e só perceber depois. Tentar consertar e piorar as coisas. Vamos chegar em casa e ficar pensando, pensando demais, perder o sono. 
Escrever cartas sem saber para quem queremos mandar. Vamos nos expor. 
Nanda.