segunda-feira, 9 de maio de 2016

Em punho

Primeiro renasce uma quizila do passado oferecendo de bandeja um posto de rival que me sinto tentada a aceitar. Ser eleita rival, nesses termos, de repente faz de mim forte, vista, impetuosa e, é claro, cruel. Imediatamente me rio toda dessa volúpia odienta de que me ocupei por uns minutos. Se ela grita e no inaudível escuto meu nome, isso fala mais dos meus ouvidos do que de sua voz. Acho graça da minha vontade repentina de estar em guerra. De ter com quem lutar. 
Empunho armas que nem tenho, encho a boca de palavras que sei que não ousarei dizer - palavras que ferem, porque a gente se sabe capaz de ferir quando é essa a intenção. Sabe também, entretanto, que a animosidade nesses casos não passa de uma bobagem toda nossa. Sabe que não há disputa que não seja com nossos próprios fantasmas. Sabe que o Outro desafiador é a gente não podendo assumir que foge das oportunidades porque tem medo de ser feliz, que avacalha um super emprego, que dispensa amores por nada, que muda de ideia quando está quase lá.
Se a injúria do passado necessita ter quem odiar, é porque as coisas por lá não devem andar fáceis e, nesse ponto, temos mais coisas em comum do que gostaríamos. O lugar de rival desperta em nós, porque somos também parecidas na maneira de amar, a força propulsora do próximo passo. E, com sorte, divide um pouquinho a responsabilidade pelas nossas mazelas. Acho que sinto saudades de quando era possível culpar o outro todinho e repetir sem saber. Descobrir-se é perder a importância demais. E não tem volta.
 
Quando a gente entende que odiar é fruto da fantasia, todo sentimento também vira?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Rival.

.
É preciso lembrar:

na fantasia do outro,
a gente ocupa qualquer lugar.


...


casa

O Beijo dourado e reluzente de Klimt ocupa a principal parede da minha sala. Klimt soube misturar dois corpos envoltos por um manto de ouro e ternura e, assim, eternizar um amor. Os olhos fechados confirmam a calma dos amantes correspondidos e o que acabo de dizer. Na lateral, Femme en Pleurs de Picasso, angustiadíssima, para me lembrar de que nem o céu nem o inferno. Os livros da estante seguem uma certa ordem, que eu disfarço com um Leminski bem no meio da coleção de Saramagos para que nunca percebam que dou atenção a essas bobagens. Os teóricos vêm primeiro e são seguidos pelos autores preferidos. O último nicho comporta os que nunca terminarei de ler, presentes de quem não me conhece bem e os dicionários. Atrás da cortina, quase escondida, uma placa da Tower Bridge, onde nunca estive, mostrando que Londres fez alguém se lembrar de mim um dia. A máscara do carnaval de 2012, Meu Destino é Pecar e uma orquídea artificial que, olhando bem, precisa de limpeza. São Francisco, um olho de boi e um abre-caminhos, mostrando toda a minha incoerência, a garrafa do vinho da primeira noite em casa servindo de vaso de flores e uma coleção de tsurus - minha mais nova obsessão.
Quem visita a minha casa quase sempre diz que tem a minha cara. Eu me lembro de estar sentada no chão da sala, ainda vazia, e de me perguntar o que vem depois. Que boas memórias seriam construidas ali e o que faz de uma casa um lar - se são as marcas de taça na mesa, o suor que fica no sofá, os lençóis gastos, os convites para entrar.
Você tem razão. A casa da gente é onde a gente está. Onde a gente está por inteiro, sendo a gente mesmo, do jeito que der pra ser. Entre amigos, bons amigos, que até suportam que a gente esteja fora do lugar. Com companheiros que fazem a gente se descobrir um pouco mais. E também nessa bagunça, em que é melhor não saber.
Seja bem vindo. Sempre tem café. Quase sempre tem comida. Faz calor.
P. me disse que devo aceitar, de uma vez por todas, de uma-vez-por-to-das (e separou as sílabas para que não ficasse dúvida), que jamais compreenderei tudo. Ele não diz isso à toa. Há anos acompanha essa minha saga de tentar racionalizar pra ser menos sofrido. Pergunte se depois de racionalizar fica tudo bem? Fica nada. Depois de racionalizar eu passo a querer o peito cheio de emoções indescritíveis e isso não acaba nunca. É difícil ser eu. Uma complicação. Você vai dizer que se lembra também de Clarice e de que viver ultrapassa todo entendimento - essa senhora detestável. Eu sei que ultrapassa. E vivo. Mas explique o coração saltitante, irritantemente saltitante, aceleradamente saltitante, um sambista!, sem saber bem a razão. (Viu? Lá vou eu de novo.)
São sete e trinta da manhã e quando acordei a casa cheirava a café. Meu vizinho, como de costume, falava ao telefone encostado na janela e parecia preocupado. Antes mesmo de abrir os olhos, tive uns três ou quatro pensamentos sobre o sonho que precedeu meu despertar e, enquanto me esquecia dele convenientemente, fui tendo aos poucos consciência das coisas. Primeiro onde estava, depois o reconhecer do aroma quente que invadia o quarto, os acontecimentos do dia anterior, a conversa desconexa no fim da noite e essa taquicardia - que tem sido bastante inoportuna.
A questão é que P. me diz essas coisas mas não é tão didático com a segunda parte, que é a de contar o segredo de viver um dia e depois o outro, mais outro, e, calmamente, não se importar. E como faz pra aceitar essas inquietações e não tomá-las como inquietações, mas como um desagrado banal, um mau humor hormonal, fome: essas coisas que todo mundo tem.
O que é que é que te agita o peito, hein?
E se só viver não for tudo?

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Das direções

Um louco aponta pro céu e diz que a voz que vem de lá guia seus passos. Nada incomum até aí. São muitos. Trovões são Deus esbravejando. Raios, sua ira apontada pro chão. Se chove, é choro incontido. O sol, bom, sol é a gente se sentindo especial demais. O que faz com que seja louco, diagnosticadamente louco, é o fato de não duvidar, nunca duvidar das vozes que escuta. Uma certeza desconcertante - para nós, que desconfiamos de tudo.
Você sugere que eu escolha o caminho, mas está difícil decidir. Pela esquerda, pela direita, pelo de sempre, nunca sei onde vai dar e, no entanto, nunca é uma grande surpresa. Queria rua nova, calçada larga, folhas de outono espalhadas no chão. Sigo em frente, é o que sei. Carrego as garras afiadas, mas não uso. Os amigos dos quais me despeço na curva e os quais reencontro no café da esquina. Os segredos de amor, tão bem guardados que nem sei onde estão. Minha nudez, escancarando marcas: cicatrizes de lutas passadas, as pintas dos meus antepassados, a postura de cansaço, o bronzeado da caminhada de ontem, as unhas roídas de nervoso, as olheiras depois daquele sonho ruim, o hematoma daquela topada na quina da mesa de quando saí apressada para aquele compromisso importantíssimo do qual nem me lembro mais. Os dentes cravados no meu ombro desde aquela noite que faz é tempo.
Eu sigo em frente, acho. Se depois da ponte for uma cidade a ser descoberta, se estiver andando em círculos, se na praça agora vendem churros, se taparam alguns buracos e podemos pedalar, se você estará lá. Se virando a esquina der de cara com um amor das antigas ou com aquele desgosto, não sei.
Vamos ver. Não dá pra parar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Beira de mar

A lenda diz que o canto doce das sereias tinha como objetivo afundar navios. Odisseu conseguiu safar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro, para poder ouvi-las sem grandes perigos. A lenda diz ainda que sereias são vencidas por quem canta ainda mais docemente - veja como são essas mulheres. A sedução e o arrastar consentido para o fundo do mar nada têm a ver com o amor. A vítima não pode, como ela, respirar debaixo d’água, e morre. Não me parece justo.
Eu não sei cantar e quero o outro vivo, vivo, muito vivo. Disso eu tenho certeza. Meu convite é para andarmos descalços na beira do mar, surpreendidos vez ou outra por uma onda que não vimos chegar porque a conversa estava boa. Água salgada molhando as pernas e a roupa e molhando tudo e a gente não se importando. Que a atenção não seja só minha, que repare no cardume que veio pro raso e queira que eu descubra também. E que me pegue olhando pro horizonte e fique tentado a ir até lá comigo, a nado. A gente, que precisa de ar pra viver, pode ir pra longe, e não pro fundo! Longe, sem saber o que tem depois. Se um dia se chega no horizonte e se depois da linha tem é mais mar. Se o mar (amar) acaba um dia. Se no meio do caminho vem um rio atravessando e adoçando as coisas. Se não. Se um banco de areia ajuda a descansar as pernas e tomar fôlego. Se, para não nos afogarmos, vamos precisar deixar a maré levar.
Ensinamentos de mar são importantes. Dizem que se você não estiver preparado para salvar alguém, que a tentativa mata. Mata você, mata os dois. Um empurra o outro pra baixo, um horror. Um horror. E aí não valem mais nem as boas intenções. Não vale a pena.
Quem vem pra beira do mar, no mínimo molha os pés. Não dá pra sair ileso.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Voo livre

Na arte de perder não há superespecialistas. Alguém que se diz expert geralmente faz uma referência à quantidade de perdas que sofreu, achando, por isso, que entende da coisa. Não consigo acreditar que por repetição fique mais fácil. Ao contrário, a cada perda o que se renova é o pavor de novas perdas e, sei bem, às vezes é possível até que se evite ganhar para não correr riscos. Para correr riscos, aliás, são necessárias habilidade e coragem - na ausência de uma, a outra precisa ser um tanto maior.
Ultimamente tenho feito parte do grupo daqueles que evitam certos riscos. Entre um pássaro na mão ou dois voando, crio versos enaltecendo a liberdade e o voo livre e defendo até o fim que fiquem todos soltos, que voem para onde quiserem, que é preciso respeitar o desejo inclusive dos pássaros e, por fim, que voltarão espontaneamente caso queiram. (Torcendo para que queiram). Ao contrário do que você pode pensar, não é mais fácil assim. Falando em perdas, deixando os pássaros todos soltos a gente também perde a chance de que o que ficou, no início por costume ou medo de partir, passe a gostar de permanecer aqui, aquecido, seguro e espiando entre os dedos. Imagine que certas espécies de pássaros dizem por aí que se você não segura firme com as duas mãos é porque você não quer tanto assim, e que não exigir que fiquem é como pedir para que vão embora. Difícil. Não há mesmo um manual para os encontros.
Nem sei do que estou falando.
Diga você, que aprendeu a mergulhar, se é de cabeça que se vai mais fundo.