domingo, 23 de setembro de 2012

Permito que o sono tome conta da manhã e me esqueço na cama. Viro pra um lado, quase quero ver que horas são, mas deixo pra depois. Meio dia já foi. Sonho com determinações importantes e não quero saber o que representam. Deixo que o sem sentido tome conta do sonho. Viro pro outro lado, quase quero acordar, mas deixo pra lá. 
Porque já ao acordar começa a batalha e ando tão tão cansada de lutar. Cuspo vespas no trânsito, cuspo vespas na calçada, odeio o jeito com que os estranhos se cumprimentam quando não querem, odeio a conversa fiada na fila do banheiro da festa e na fila do banco e na fila do estacionamento. Odeio as filas. Odeio o garçon que interrompe o almoço e o assunto para saber se a carne está de acordo. E as senhorinhas que contam moedas e deixam as moedas caírem e perdem as contas e, ocasionalmente, uma moeda de cinco.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

José,

São onze e trinta da manhã e a correria de sempre dessa vez me permitiu ter vinte minutos de almoço no lugar dos dez de ontem. Quanto sabor se perde com a pressa. Não seria pedir muito poder ver o mar logo cedo e ter uma ou duas surpresas até o meio do dia. Talvez você saiba o que é. Sabe? Também te acontece de ver a vida passar?

Ontem falava de você, porque você me disse umas verdades e eu não sei o que acontece quando vêm de você, mas eu tendo a ouvir. E eu ouvi. E eu acredito, acredito em tudo o que diz. E aí você des-diz e eu acredito que ser incoerente seja a nossa sina. Aceito. O que posso fazer?

Entre outras coisas, você me dizia que o azul do céu é reflexo do azul do mar, que acharam água em Plutão e que a Terra está superaquecida. E que fui eu que fiz isso tudo. Dizia que a classe C no Brasil é emergente e que a nova D é a antiga C e que a tendência é se chegar ao fim do afalbeto. Por minha causa. E ainda, que se juntassem as CPIs todas que já inventaram e fossem presos todos, todos, todos, se houvesse justiça no mundo, eu de novo.

Ô, José.
Ô, José...



sábado, 28 de julho de 2012

E como é que o amor desponta?

sábado, 30 de junho de 2012

As bailarinas de Degas não esperam

Pode ser que eu esteja falando cedo demais, mas eu duvido que as bailarinas de Degas esperassem tanto. Aposto que com elas era diferente e que quando entravam no palco, nem saltitavam tanto porque naquela época o Bolshoi já tinha revolucionando a arte do dançar e todos sabiam que um bom balé se faz com delicadeza. 
Eu suponho que no fim do primeiro ato as bailarinas de Degas já contavam com flores espalhadas por todo o camarim. E sabiam que seriam esperadas em todas as portas do teatro e dos pequenos anfiteatros e nos fundos dos calabouços e inferninhos da época. Não por serem bailarinas, simplesmente. Mas porque tinham uma beleza inesperada e porque enquanto dançavam não olhavam para os lados. Rodopiavam quando a melodia ficava mais intensa e fingiam que não estavam sendo vistas.
E fingir que não eram vistas era tudo o que deviam fazer para que a platéia inteira, mulheres, homens, senhores acompanhados e crianças de colo, todos olhassem mais e mais e mais, tentando flagrar uma bailarina distraída que voltasse seus olhos para os olhos de alguém e sorrisse sem querer ou errasse o passo por descuido e desatenção.


domingo, 24 de junho de 2012

Uns dizem fim, uns dizem sim.

O terceiro que chegou, como quem chega do nada, não sabe meu nome direito, não fala coisa com coisa, entona a sílaba errada de cada palavra, atravessa a madrugada com uma pergunta fora de hora e me tira um sorriso sem eu perceber. E pra além do sorriso, me tira um pouco aquele rumo de sempre e eu faço diferente dizendo que não. Eu faço,dizendo que não. Eu digo não, mas é sim sim sim e todo mundo sabe. Eu não tento mentir. (Mentira). E se nos ocorre olhar pela janela, vemos o dia amanhecer e a vida acontecer e parece banal.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vermelho

Nem todo vermelho é de sangue.
E eu digo porque sei. E eu sei porque vi outro dia o vermelho nos cachos de uma moça que flutuava ao andar. Arrastava um balanço despercebido e pensava em tantos outros tons que não viu que do lado dela o senhor de paletó fez que ia atravessar quando o sinal ficou vermelho para ele e verde para os outros. Recuou depressa, meio trôpego, risonho e envergonhado - porque o recuo pareceu-lhe, por um instante, uma espécie de dança.
Mais à frente, o cachorro botava a cabeça para fora da janela e o vento balançava-lhe as orelhas. Abria a boca de um jeito que mais parecia um sorriso. E,virando a esquina, o vendedor de guarda-chuvas gorava o sol com suas superofertas. A precavida senhora de vestido florido comprou a sombrinha mais colorida e fez de bengala porque não cabia na bolsa.Os cachos vermelhos desbotavam de tempos e tempos e eram reafirmados, revivos com a tinta de sempre, misturada com um pouquinho da outra para melhorar o brilho e creme, creme de pentear.

sábado, 12 de maio de 2012

Permita que o amor invada sua casa, coração

Ganhei um Santo Antonio com menino e tudo. Brinco de tirar o menino dos braços do santo pra que ele veja como é bom perder alguém. Vamos ver se assim ele se compadece e traz uma pessoa amada em três dias. Eu disse uma. Pode ser qualquer uma, desde que de bom coração. E se não for pedir muito, que já tenha lido alguma coisa de Machado. E se ainda não for pedir muito, que tenha bom gosto musical (ou fones de ouvido). E se não for abusar demais, que seja íntegro, porque sem integridade não dá. E, vai me desculpar, que saiba o que quer da vida, que faça planos pro futuro, que goste de viajar, que tenha bons modos à mesa, um bom português, um trabalho honesto, dentes bonitos, bom humor e...

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