sábado, 29 de novembro de 2014

Onírica

Começa com uma enxurrada que ainda vem. Estamos em um lugar amplo e me seguro em você. Protejo-me protegendo-o. Mantenho os olhos bem abertos para estar preparada - mas que vontade de fechá-los. Como preparar-se para o inevitável? Sinto o peito arfando. Agonia de espera.
...

Estamos agora em meio a uma multidão. Você é tão familiar, tenta ser agradável. Quase consegue. Estamos próximos e infinitamente distantes. Sabemos de nós. Estamos descobertos. De repente (este é o ponto máximo da cena) escancara-se uma substituição. Você não suporta e sai. Eu fico. Eu fico sempre.
...

Sonhos de perda em sequencia para dizer que as despedidas ainda me ocupam muito. Hoje fui acometida por todas as despedidas. Vi em um vídeo um cachorro que chorava no túmulo de seu dono. Todo mundo sabe o que é perder.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Saio falando aos montes pra calar a dor.
Calador.

domingo, 2 de novembro de 2014

O que se sabe

Judith,

Preciso te escrever para dizer que, com absoluta certeza, não sabemos mesmo de nada. Imaginamos e acreditamos no que nos for suficiente acreditar, mas jamais será a exata medida do que acontece. Antes, eu achava que tinha uma escuta aguçada e um sexto sentido forte. Bobagem, Judith. Não faz muito tempo, enfrentei um senhor que queria me fazer concordar com a geneticidade das coisas. Inventei esta palavra, geneticidade, porque não há melhor forma de dizê-lo. E, na minha ignorância, eu o enfrentei porque achava que aquele senhor estava desvalorizando as coisinhas todas nas quais eu acreditava e das quais eu falava em público. A verdade, bom, verdade é jeito de falar, a questão é que ele estava tentando se convencer de que algo mais forte que o sujeito pode determinar suas escolhas. Mas ele precisava acreditar em quem diz que sinapses são determinantes. Porque não dá pra controlar sinapses, por Deus. Falar em inconsciente era demais pra ele, porque a gente parece muito frágil se diz que o inconsciente é quem manda. Ele não podia suportar que seu filho escolhesse usar drogas. Em vez disso, pediu que eu estudasse essa coisa, que faz com que o cérebro de alguns seja mais receptivo aos efeitos da droga, e que neurotransmissores tornem a pessoa mais viciável. Eu não pude acolher a dor daquele pai. Mas eu não sabia. Um enfrentamento pode ser uma demanda. Dessa vez eu não sabia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Quereres

Carrego quereres nas costas. Plurais, minúsculos. Carrego sozinha e já pesaram de doer. Livrei-me das dores, não dos quereres. Se me livrasse de alguns, ainda sobrariam muitos e viriam outros. Quereres não faltam. Nunca faltam.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Por quê,

Pensava eu no tamanho dos meus problemas, que tamanho, em relação aos problemas daquela mulher e seus onze filhos que comem lixo. Tentava entender por que é que eu, que jamais toquei no lixo, não tenho filhos bem nutridos. Tentava entender por que é que ela, que não tem o que comer, não para de ter filhos.Se teve o último pra fazer companhia pro anterior e para também comer lixo. Pensava eu no que é que legitima uma dor. Em mim, que nunca doí de fome, a dor sempre me pareceu enorme. Entre um filho e outro, entre ter e não ter o que comer, ela também dói? Ou será que isso que nem parece vida ela vai vivendo, vivendo, que jeito? Com fome, nem pensar em morrer a gente pensa. A gente quer é comer. Por que é que saber de dor muito maior, a nossa não fica pequena? 

sábado, 30 de agosto de 2014

Otimismo em lata. Tamanho G.

Ana prometeu uma dose de otimismo. Vou tentar com tequila pra ver se fica bom. Diga a Ana que se o prometido valer, o que duvido, porque duvido sempre, que venha com manual. Um manual simples, que seja, dizendo a utilidade e um passo a passo óbvio. O que se faz com otimismo, Ana? E quando acaba, onde encontrar? 

Aqui são portas e janelas sempre abertas pra sorte entrar. Diz o dito que visita que se espera nunca chega, mas eu espero sempre. Esperar também deve ser de quem é otimista. Eu espero com um segundo plano, pra nunca acontecer de não saber o que fazer. Eu sempre sei e nunca sei, que diabo.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Hay un punto donde me veo forzado a decir no, mas não consigo. As solidões me pegam por todos os lados e se reafirmam, imponentes e certas. As pessoas, todas infelizes. Convoco uma reunião para dizer tudo e não digo. Desvio o olhar para que não note quer algo se perdeu. Você sabe. Saudades escorrem líquidas. Decido apagar todas as lembranças - eram só duas. Refaço, na memória, todo o caminho e é o mesmo. O mesmo caminho e é sempre desconhecido. Repito, mas digo que não. A coisa não dita invade a sala e se estica no sofá - ocupa tudo. São dois lugares. Estamos dentro ou estamos fora (não há intermédio). Remédio pra quem tá fora é entrar. O de dentro, sai. Resolve-se assim. 
Hay un punto donde me veo forzado a decir no, e digo! Finalmente digo. Digo mil vezes internamente e espero que eu ouça, antes de tudo. Eu ouço, ouço demais, ouço antes. Ouvir é irreversível. Apago todos os vestígios e são só dois. 

"E como é que (assim) o amor desponta?"