terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cegos do castelo

Novo instante: vejo antecipadamente o que vai se seguir e é nada. Uma pequena história passada se renova já. Renovada, ainda assim é a mesma? Pareço não ter visto o ponto exato em que tudo se deu e agora é tarde para entender o mistério das pequeníssimas mudanças. Pequeníssimas mudanças não são mudanças propriamente ditas. São presságios, como sabemos. Fala-se sobre castelos de cartas, o que há sob os castelos de cartas e, de repente, descobre-se que, destruído o castelo, ficam as cartas caídas e só. Vontades de castelo, talvez. Antes as vontades eram fundamentais. Sem elas, nem as cartas nem os castelos: não haveria nada.


Mas há coisas sobre as quais não me é permitido falar porque não sei como se dão. A ignorância é a única verdadeira limitação. E suposições também são presságios, mas dessa vez de verdades inventadas. Será que já existem verdades que não o sejam?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A gente se ilude dizendo já não há mais coração

Eu sei que você sabe, mas vamos (nos) repetir: o furo sempre esteve ali. E não é pra te chocar, mas sempre estará. Acho bonito que persista sempre esse furo, no peito. Acho que também tenho (mas não tem ecocardiograma que confirme). Falando aqui sobre a volatilidade das paixões, de repente imaginei sem querer as pessoas que passam pelas nossas vidas escorregando por este buraco e caindo longe. 

Será que é preciso um coração fechado para amar?

Somália

Outro dia me lembrei de uma cadela que apareceu no nosso quintal. Achávamos que era filhote, tão pequena era, e eu compadeci-me dela porque tenho essa coisa com os bichos. Ao amanhecer, percebemos que não era filhote. Estava era desnutrida. Uma desnutrição nítida na forma como devorava qualquer coisa que jogássemos para ela. Era desnutrida e, claro, faminta. 

Para fazer graça com a desgraça, porque tenho essa coisa com a tristeza, demos o nome de Somália. Ali, naquela casa, eu era a única que maternalmente pegava Somália. E aquecia Somália porque achava que aquela magreza traria mais frio. E dava mais e mais comida para Somália, porque queria vê-la bem, gorda, bonita. Achava que assim as pessoas dali talvez passassem a gostar um pouquinho dela. 

O que eu não percebia era que Somália e eu não éramos dali. Ser maternal com aquela cadela, desnutrida e mal cuidada, não me importar com as pulgas e querer Somália pra mim, escancarava o que talvez eu quisesse escancarar: que eu não cabia ali.

Somália foi embora na mesma noite. 

Eu fiquei mais um mês.

domingo, 23 de setembro de 2012

Permito que o sono tome conta da manhã e me esqueço na cama. Viro pra um lado, quase quero ver que horas são, mas deixo pra depois. Meio dia já foi. Sonho com determinações importantes e não quero saber o que representam. Deixo que o sem sentido tome conta do sonho. Viro pro outro lado, quase quero acordar, mas deixo pra lá. 
Porque já ao acordar começa a batalha e ando tão tão cansada de lutar. Cuspo vespas no trânsito, cuspo vespas na calçada, odeio o jeito com que os estranhos se cumprimentam quando não querem, odeio a conversa fiada na fila do banheiro da festa e na fila do banco e na fila do estacionamento. Odeio as filas. Odeio o garçon que interrompe o almoço e o assunto para saber se a carne está de acordo. E as senhorinhas que contam moedas e deixam as moedas caírem e perdem as contas e, ocasionalmente, uma moeda de cinco.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

José,

São onze e trinta da manhã e a correria de sempre dessa vez me permitiu ter vinte minutos de almoço no lugar dos dez de ontem. Quanto sabor se perde com a pressa. Não seria pedir muito poder ver o mar logo cedo e ter uma ou duas surpresas até o meio do dia. Talvez você saiba o que é. Sabe? Também te acontece de ver a vida passar?

Ontem falava de você, porque você me disse umas verdades e eu não sei o que acontece quando vêm de você, mas eu tendo a ouvir. E eu ouvi. E eu acredito, acredito em tudo o que diz. E aí você des-diz e eu acredito que ser incoerente seja a nossa sina. Aceito. O que posso fazer?

Entre outras coisas, você me dizia que o azul do céu é reflexo do azul do mar, que acharam água em Plutão e que a Terra está superaquecida. E que fui eu que fiz isso tudo. Dizia que a classe C no Brasil é emergente e que a nova D é a antiga C e que a tendência é se chegar ao fim do afalbeto. Por minha causa. E ainda, que se juntassem as CPIs todas que já inventaram e fossem presos todos, todos, todos, se houvesse justiça no mundo, eu de novo.

Ô, José.
Ô, José...



sábado, 28 de julho de 2012

E como é que o amor desponta?

sábado, 30 de junho de 2012

As bailarinas de Degas não esperam

Pode ser que eu esteja falando cedo demais, mas eu duvido que as bailarinas de Degas esperassem tanto. Aposto que com elas era diferente e que quando entravam no palco, nem saltitavam tanto porque naquela época o Bolshoi já tinha revolucionando a arte do dançar e todos sabiam que um bom balé se faz com delicadeza. 
Eu suponho que no fim do primeiro ato as bailarinas de Degas já contavam com flores espalhadas por todo o camarim. E sabiam que seriam esperadas em todas as portas do teatro e dos pequenos anfiteatros e nos fundos dos calabouços e inferninhos da época. Não por serem bailarinas, simplesmente. Mas porque tinham uma beleza inesperada e porque enquanto dançavam não olhavam para os lados. Rodopiavam quando a melodia ficava mais intensa e fingiam que não estavam sendo vistas.
E fingir que não eram vistas era tudo o que deviam fazer para que a platéia inteira, mulheres, homens, senhores acompanhados e crianças de colo, todos olhassem mais e mais e mais, tentando flagrar uma bailarina distraída que voltasse seus olhos para os olhos de alguém e sorrisse sem querer ou errasse o passo por descuido e desatenção.