Preciso te escrever para dizer que, com absoluta certeza, não sabemos mesmo de nada. Imaginamos e acreditamos no que nos for suficiente acreditar, mas jamais será a exata medida do que acontece. Antes, eu achava que tinha uma escuta aguçada e um sexto sentido forte. Bobagem, Judith. Não faz muito tempo, enfrentei um senhor que queria me fazer concordar com a geneticidade das coisas. Inventei esta palavra, geneticidade, porque não há melhor forma de dizê-lo. E, na minha ignorância, eu o enfrentei porque achava que aquele senhor estava desvalorizando as coisinhas todas nas quais eu acreditava e das quais eu falava em público. A verdade, bom, verdade é jeito de falar, a questão é que ele estava tentando se convencer de que algo mais forte que o sujeito pode determinar suas escolhas. Mas ele precisava acreditar em quem diz que sinapses são determinantes. Porque não dá pra controlar sinapses, por Deus. Falar em inconsciente era demais pra ele, porque a gente parece muito frágil se diz que o inconsciente é quem manda. Ele não podia suportar que seu filho escolhesse usar drogas. Em vez disso, pediu que eu estudasse essa coisa, que faz com que o cérebro de alguns seja mais receptivo aos efeitos da droga, e que neurotransmissores tornem a pessoa mais viciável. Eu não pude acolher a dor daquele pai. Mas eu não sabia. Um enfrentamento pode ser uma demanda. Dessa vez eu não sabia.
domingo, 2 de novembro de 2014
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Quereres
Carrego quereres nas costas. Plurais, minúsculos. Carrego sozinha e já pesaram de doer. Livrei-me das dores, não dos quereres. Se me livrasse de alguns, ainda sobrariam muitos e viriam outros. Quereres não faltam. Nunca faltam.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Por quê,
Pensava eu no tamanho dos meus problemas, que tamanho, em relação aos problemas daquela mulher e seus onze filhos que comem lixo. Tentava entender por que é que eu, que jamais toquei no lixo, não tenho filhos bem nutridos. Tentava entender por que é que ela, que não tem o que comer, não para de ter filhos.Se teve o último pra fazer companhia pro anterior e para também comer lixo. Pensava eu no que é que legitima uma dor. Em mim, que nunca doí de fome, a dor sempre me pareceu enorme. Entre um filho e outro, entre ter e não ter o que comer, ela também dói? Ou será que isso que nem parece vida ela vai vivendo, vivendo, que jeito? Com fome, nem pensar em morrer a gente pensa. A gente quer é comer. Por que é que saber de dor muito maior, a nossa não fica pequena?
sábado, 30 de agosto de 2014
Otimismo em lata. Tamanho G.
Ana prometeu uma dose de otimismo. Vou tentar com tequila pra ver se fica bom. Diga a Ana que se o prometido valer, o que duvido, porque duvido sempre, que venha com manual. Um manual simples, que seja, dizendo a utilidade e um passo a passo óbvio. O que se faz com otimismo, Ana? E quando acaba, onde encontrar?
Aqui são portas e janelas sempre abertas pra sorte entrar. Diz o dito que visita que se espera nunca chega, mas eu espero sempre. Esperar também deve ser de quem é otimista. Eu espero com um segundo plano, pra nunca acontecer de não saber o que fazer. Eu sempre sei e nunca sei, que diabo.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Hay un punto donde me veo forzado a decir no, mas não consigo. As solidões me pegam por todos os lados e se reafirmam, imponentes e certas. As pessoas, todas infelizes. Convoco uma reunião para dizer tudo e não digo. Desvio o olhar para que não note quer algo se perdeu. Você sabe. Saudades escorrem líquidas. Decido apagar todas as lembranças - eram só duas. Refaço, na memória, todo o caminho e é o mesmo. O mesmo caminho e é sempre desconhecido. Repito, mas digo que não. A coisa não dita invade a sala e se estica no sofá - ocupa tudo. São dois lugares. Estamos dentro ou estamos fora (não há intermédio). Remédio pra quem tá fora é entrar. O de dentro, sai. Resolve-se assim.
Hay un punto donde me veo forzado a decir no, e digo! Finalmente digo. Digo mil vezes internamente e espero que eu ouça, antes de tudo. Eu ouço, ouço demais, ouço antes. Ouvir é irreversível. Apago todos os vestígios e são só dois.
"E como é que (assim) o amor desponta?"
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Carla,
De palavra em palavra, nascem entre elas mil segredos. Coisas indiscutíveis ou duvidáveis - acho que são sinônimos. A dúvida serve para interrogar e gerar mais palavras. E mais dúvidas. Não sei aonde chegaremos, mas o que importa é caminhar. Tenho horror ao que paralisa. Tanto horror que me antecipo a todo instante. Sou precoce. Adianto o tempo e envelheço logo, que é pra não ter surpresa. Quanta incoerência, adoro surpresa. (...)
Sinto que tenho um propósito cada vez que ouço uma dor. De cara, meu propósito é ouvir e só. Interrogo pra ver o que sai. Me esforço pra ouvir até quem não quer falar. Sobretudo quem não quer falar. Tenho falado pouco e escrito menos, não sei bem a quem dizer. Descobertos os segredos, o que resta de nós?
Estou apaixonada pelos livros de receita. Aprendi que existe uma técnica para se cortar gomos sem que despedacem e que tudo fica lindo e aromático quando se fala em gomos. Compreendendo o que são 2/4 de xícara, tudo dá certo. Com a dosagem certa de amor e um alho fresco, não há receita que não funcione. Até quem não gosta, come com os olhos. Adoro essas expressões.
Tenho descoberto que cuidar de uma casa te ensina a cuidar de todas as relações. Ajuda no trabalho, se aprender sobre prazos e das combinações (das contas, dos alimentos). Ajuda no amor, se aprender a inovar quando enjoar e a repetir o que funciona. Perceba que essas coisas oscilam bastante. Na família, se trouxer com você o que já aprenderam e te ensinaram durante toda a vida. A sabedoria se reconhece no primeiro apuro. Nas amizades, que precisam de cuidado, podem esperar e todas as outras lições alternadas.
Se quer uma dica, banho-maria.
Os melhores doces partem daí.
Um beijo.
Fernanda.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Carla,
Não sei de que sabedoria fala. Tenho desaprendido insistentemente. A cada dia desaprendo uma coisa nova, e como é difícil preencher essa lacuna que fica no lugar das certezas. Algumas palavras perderam bastante sentido e não sei o que fazer com elas. Bondade? Não sei o que é a bondade, mas também nunca soube. Acho que a gente inventa essas coisas pra não ter que ficar em silêncio. Inventa a amizade para não ficar só. Inventa o amor para não ficar seco. Mas fica só e fica seco. Que diabos é isso?
A gente cega um pouco todos os dias pra suportar a mesquinhez do outro e, sobretudo a nossa própria mesquinhez. A gente ensurdece um pouco pra suportar os deslizes e não ouvir o que é dito sem querer dizer. E de vez em quando a gente paga alguém pra ouvir a gente, porque, meu deus do céu, alguém precisa ouvir essa podridão e não querer fugir. E se quiser fugir, a gente paga mais caro - o preço é sempre alto.
Tenho ouvido muito ódio, ódio declarado, ódio misturado com amor. Ódio, ódio. Repita três vezes, pra ver se não aparece.
Apesar disso, desaprender é um pouco estar vivo. Porque a gente desaprende a andar do mesmo jeito e tenta mudar. Mas como é difícil mudar! Porque o que fica pra trás, a gente continua achando que é um pouco nosso. A gente não sabe avançar. A gente prepara a casa e, quando vê, o armário está cheio de coisas iguais às de que a gente não precisava mais. E foi a gente que comprou, tudinho novo. Te mostro a nota fiscal.
Gosto de Hilda Hilst dizendo que tu não te moves de ti. É verdade. Que diabo.
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