sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Burocracias

São 19h e já não me lembro o que serviram no almoço. Ou será que foi ontem que almocei? Não sei. Hoje cedo, bem cedinho, o primeiro pensamento que me veio foi o de não me esquecer de ligar para a loja de livros e perguntar das demoras todas e se ali não sabiam que quando queremos ler Guimarães é sempre urgente. E também se não dá pra trocar aquele do Galera por um clássico, porque ando com preguiça de novidades. Pensei também se seria verdade ou se teria sonhado com a compra de umas fantasias. Engraçado falar compra de fantasias. Podia mesmo ser possível comprar algumas e guardar a nota fiscal para o caso de não se realizarem. Mas as fantasias existem para serem fantasias e só, e não para se realizarem. Que bobagem. 

Umas duas ou três vezes ao longo da tarde, emprestei meus ouvidos e presenciei uma dor. Era das grandes. Pensei rapidinho que se começasse tudo de novo e escolhesse tudo de novo, que tal seria ser dona de sorveteria e ver de pertinho alguma satisfação, só pra me certificar de que existe. Mas antes que pensasse em outra opção, quem sabe o cultivo de orquídeas, veio outra dor atropelando e concluí que gosto mesmo dessa coisa de tentar tornar digno o sofrimento humano e, por isso,com sorte, às vezes poder até vê-lo diminuir...

Ia me emocionar, quase foi, mas já estava atrasada. Bebi água hoje? Jurei que seriam 2 litros todos os dias, mas é difícil e esses filtros não são confiáveis. E no caminho pra casa senti falta de escrever. O sinal demorou tanto a abrir que puxei uma caneta e esbocei um trecho: "ele escancara as minhas incoerências todas..." e então buzinaram atrás, a fila andou e a idéia se foi.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Torpedo

Ele se assustou quando soou o alarme de mensagem no celular e o nome que aparecia era o dela porque pensava ainda há pouco que o sinal de telefonia anda uma bosta em toda a cidade e que se alguém tentasse se comunicar, fosse a mãe dizendo que deixou a sopa pronta na geladeira, fosse uma emergência do trabalho, ninguém o encontraria. Pensou ainda que nos nossos tempos dá uma angústia ficar incomunicável e que nem se lembra de como era quando as pessoas esperavam o fim do dia para saber as novidades. Não que o jornal das oito fosse menos parcial naquela época, mas é que as pessoas conversaram mais e direito e por acúmulo. Assim as informações eram mais concisas e importantes. Agora, que todos mandam torpedos, etc, a todo instante, nada é novo. Até quando acorda seu celular já recebeu as novidades da noite. Nem precisa chegar no trabalho ou encontrar um amigo na hora do almoço. 

Mas nesse dia, que a mensagem era dela e num momento em que ele jurava que ela estaria dormindo ou, se não estivesse dormindo, que estivesse bem divertida em uma festa pouco divertida da cidade, ficou surpreso. Acho que gostou um pouquinho da surpresa, porque fazia tempo que isso não acontecia. A frase dela veio meio cortada, indicando que ela pudesse estar um pouquinho bêbada ou que o sinal de telefonia continuava uma bosta. Mas a frase seguinte, mesmo sem pé nem cabeça, talvez dissesse pra ele que ela ainda pensava nele mesmo enquanto se divertia nas festas da cidade, que podia até ter conhecido alguém simpático mas que gostaria que ele estivesse ali pra entender aquela tirada espirituosa que ela sempre tinha quando bebia, que ela sentia ciúme do que ele pudesse estar fazendo longe dela e que queria só ser lembrada e testar se teria resposta.
Era isso ou ela estava bêbada.
Ou a telefonia anda uma bosta.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cegos do castelo

Novo instante: vejo antecipadamente o que vai se seguir e é nada. Uma pequena história passada se renova já. Renovada, ainda assim é a mesma? Pareço não ter visto o ponto exato em que tudo se deu e agora é tarde para entender o mistério das pequeníssimas mudanças. Pequeníssimas mudanças não são mudanças propriamente ditas. São presságios, como sabemos. Fala-se sobre castelos de cartas, o que há sob os castelos de cartas e, de repente, descobre-se que, destruído o castelo, ficam as cartas caídas e só. Vontades de castelo, talvez. Antes as vontades eram fundamentais. Sem elas, nem as cartas nem os castelos: não haveria nada.


Mas há coisas sobre as quais não me é permitido falar porque não sei como se dão. A ignorância é a única verdadeira limitação. E suposições também são presságios, mas dessa vez de verdades inventadas. Será que já existem verdades que não o sejam?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A gente se ilude dizendo já não há mais coração

Eu sei que você sabe, mas vamos (nos) repetir: o furo sempre esteve ali. E não é pra te chocar, mas sempre estará. Acho bonito que persista sempre esse furo, no peito. Acho que também tenho (mas não tem ecocardiograma que confirme). Falando aqui sobre a volatilidade das paixões, de repente imaginei sem querer as pessoas que passam pelas nossas vidas escorregando por este buraco e caindo longe. 

Será que é preciso um coração fechado para amar?

Somália

Outro dia me lembrei de uma cadela que apareceu no nosso quintal. Achávamos que era filhote, tão pequena era, e eu compadeci-me dela porque tenho essa coisa com os bichos. Ao amanhecer, percebemos que não era filhote. Estava era desnutrida. Uma desnutrição nítida na forma como devorava qualquer coisa que jogássemos para ela. Era desnutrida e, claro, faminta. 

Para fazer graça com a desgraça, porque tenho essa coisa com a tristeza, demos o nome de Somália. Ali, naquela casa, eu era a única que maternalmente pegava Somália. E aquecia Somália porque achava que aquela magreza traria mais frio. E dava mais e mais comida para Somália, porque queria vê-la bem, gorda, bonita. Achava que assim as pessoas dali talvez passassem a gostar um pouquinho dela. 

O que eu não percebia era que Somália e eu não éramos dali. Ser maternal com aquela cadela, desnutrida e mal cuidada, não me importar com as pulgas e querer Somália pra mim, escancarava o que talvez eu quisesse escancarar: que eu não cabia ali.

Somália foi embora na mesma noite. 

Eu fiquei mais um mês.

domingo, 23 de setembro de 2012

Permito que o sono tome conta da manhã e me esqueço na cama. Viro pra um lado, quase quero ver que horas são, mas deixo pra depois. Meio dia já foi. Sonho com determinações importantes e não quero saber o que representam. Deixo que o sem sentido tome conta do sonho. Viro pro outro lado, quase quero acordar, mas deixo pra lá. 
Porque já ao acordar começa a batalha e ando tão tão cansada de lutar. Cuspo vespas no trânsito, cuspo vespas na calçada, odeio o jeito com que os estranhos se cumprimentam quando não querem, odeio a conversa fiada na fila do banheiro da festa e na fila do banco e na fila do estacionamento. Odeio as filas. Odeio o garçon que interrompe o almoço e o assunto para saber se a carne está de acordo. E as senhorinhas que contam moedas e deixam as moedas caírem e perdem as contas e, ocasionalmente, uma moeda de cinco.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

José,

São onze e trinta da manhã e a correria de sempre dessa vez me permitiu ter vinte minutos de almoço no lugar dos dez de ontem. Quanto sabor se perde com a pressa. Não seria pedir muito poder ver o mar logo cedo e ter uma ou duas surpresas até o meio do dia. Talvez você saiba o que é. Sabe? Também te acontece de ver a vida passar?

Ontem falava de você, porque você me disse umas verdades e eu não sei o que acontece quando vêm de você, mas eu tendo a ouvir. E eu ouvi. E eu acredito, acredito em tudo o que diz. E aí você des-diz e eu acredito que ser incoerente seja a nossa sina. Aceito. O que posso fazer?

Entre outras coisas, você me dizia que o azul do céu é reflexo do azul do mar, que acharam água em Plutão e que a Terra está superaquecida. E que fui eu que fiz isso tudo. Dizia que a classe C no Brasil é emergente e que a nova D é a antiga C e que a tendência é se chegar ao fim do afalbeto. Por minha causa. E ainda, que se juntassem as CPIs todas que já inventaram e fossem presos todos, todos, todos, se houvesse justiça no mundo, eu de novo.

Ô, José.
Ô, José...