sábado, 30 de agosto de 2014

Otimismo em lata. Tamanho G.

Ana prometeu uma dose de otimismo. Vou tentar com tequila pra ver se fica bom. Diga a Ana que se o prometido valer, o que duvido, porque duvido sempre, que venha com manual. Um manual simples, que seja, dizendo a utilidade e um passo a passo óbvio. O que se faz com otimismo, Ana? E quando acaba, onde encontrar? 

Aqui são portas e janelas sempre abertas pra sorte entrar. Diz o dito que visita que se espera nunca chega, mas eu espero sempre. Esperar também deve ser de quem é otimista. Eu espero com um segundo plano, pra nunca acontecer de não saber o que fazer. Eu sempre sei e nunca sei, que diabo.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Hay un punto donde me veo forzado a decir no, mas não consigo. As solidões me pegam por todos os lados e se reafirmam, imponentes e certas. As pessoas, todas infelizes. Convoco uma reunião para dizer tudo e não digo. Desvio o olhar para que não note quer algo se perdeu. Você sabe. Saudades escorrem líquidas. Decido apagar todas as lembranças - eram só duas. Refaço, na memória, todo o caminho e é o mesmo. O mesmo caminho e é sempre desconhecido. Repito, mas digo que não. A coisa não dita invade a sala e se estica no sofá - ocupa tudo. São dois lugares. Estamos dentro ou estamos fora (não há intermédio). Remédio pra quem tá fora é entrar. O de dentro, sai. Resolve-se assim. 
Hay un punto donde me veo forzado a decir no, e digo! Finalmente digo. Digo mil vezes internamente e espero que eu ouça, antes de tudo. Eu ouço, ouço demais, ouço antes. Ouvir é irreversível. Apago todos os vestígios e são só dois. 

"E como é que (assim) o amor desponta?"

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Carla,

De palavra em palavra, nascem entre elas mil segredos. Coisas indiscutíveis ou duvidáveis - acho que são sinônimos. A dúvida serve para interrogar e gerar mais palavras. E mais dúvidas. Não sei aonde chegaremos, mas o que importa é caminhar. Tenho horror ao que paralisa. Tanto horror que me antecipo a todo instante. Sou precoce. Adianto o tempo e envelheço logo, que é pra não ter surpresa. Quanta incoerência, adoro surpresa. (...)
Sinto que tenho um propósito cada vez que ouço uma dor. De cara, meu propósito é ouvir e só. Interrogo pra ver o que sai. Me esforço pra ouvir até quem não quer falar. Sobretudo quem não quer falar. Tenho falado pouco e escrito menos, não sei bem a quem dizer. Descobertos os segredos, o que resta de nós?

Estou apaixonada pelos livros de receita. Aprendi que existe uma técnica para se cortar gomos sem que despedacem e que tudo fica lindo e aromático quando se fala em gomos. Compreendendo o que são 2/4 de xícara, tudo dá certo. Com a dosagem certa de amor e um alho fresco, não há receita que não funcione. Até quem não gosta, come com os olhos. Adoro essas expressões.

Tenho descoberto que cuidar de uma casa te ensina a cuidar de todas as relações. Ajuda no trabalho, se aprender sobre prazos e das combinações (das contas, dos alimentos). Ajuda no amor, se aprender a inovar quando enjoar e a repetir o que funciona. Perceba que essas coisas oscilam bastante. Na família, se trouxer com você o que já aprenderam e te ensinaram durante toda a vida. A sabedoria se reconhece no primeiro apuro. Nas amizades, que precisam de cuidado, podem esperar e todas as outras lições alternadas.

Se quer uma dica, banho-maria.
Os melhores doces partem daí.

Um beijo.
Fernanda.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Carla,

Não sei de que sabedoria fala. Tenho desaprendido insistentemente. A cada dia desaprendo uma coisa nova, e como é difícil preencher essa lacuna que fica no lugar das certezas. Algumas palavras perderam bastante sentido e não sei o que fazer com elas. Bondade? Não sei o que é a bondade, mas também nunca soube. Acho que a gente inventa essas coisas pra não ter que ficar em silêncio. Inventa a amizade para não ficar só. Inventa o amor para não ficar seco. Mas fica só e fica seco. Que diabos é isso? 
A gente cega um pouco todos os dias pra suportar a mesquinhez do outro e, sobretudo a nossa própria mesquinhez. A gente ensurdece um pouco pra suportar os deslizes e não ouvir o que é dito sem querer dizer. E de vez em quando a gente paga alguém pra ouvir a gente, porque, meu deus do céu, alguém precisa ouvir essa podridão e não querer fugir. E se quiser fugir, a gente paga mais caro - o preço é sempre alto. 
Tenho ouvido muito ódio, ódio declarado, ódio misturado com amor. Ódio, ódio. Repita três vezes, pra ver se não aparece.

Apesar disso, desaprender é um pouco estar vivo. Porque a gente desaprende a andar do mesmo jeito e tenta mudar. Mas como é difícil mudar! Porque o que fica pra trás, a gente continua achando que é um pouco nosso. A gente não sabe avançar. A gente prepara a casa e, quando vê, o armário está cheio de coisas iguais às de que a gente não precisava mais. E foi a gente que comprou, tudinho novo. Te mostro a nota fiscal. 

Gosto de Hilda Hilst dizendo que tu não te moves de ti. É verdade. Que diabo.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quem sabe de Édipo, no hay suspense. Piadinhas sobre se, de repente, todo zelo é todo amor ou nem isso. Gravei na memória mais que podia. Falei aos ecos que seja doce, que seja doce. Que segredo está procurando? A minha vida, ainda estou ruminando. Tudo e sua fatalidade. Qualquer amor que possa até ser escrito por mim. Isso aqui é casa de flores, façam cantar os passarinhos. É a parte da tua estrada no need to go outside.É a minha negligência. What a surprise. Somos livres e eu corro, vou demais. Desatou um nó, nos aflitos. Não tem cura. Depois, eu prezava era de ter das coisas fúteis. Se eu pegar uma surpresa agradável, ver a propositada malícia, sem buço. Meu passado me foi pro pensamento, já mexeu na razão. Pra ser viril, basta agir como eu penso. Só estava era entretido na boca, com senhas preferenciais. Ir pra além do Almodóvar é muito sem suspense. Olhou-me nos olhos, mediu minha negligência, que pareço generoso por dentro, como todo domingo. Fiquei com nitidez...É, meu amigo, só resta uma certeza. Sweet comic valentine, you make me leve à minha compreensão. Troco superego por não saber como é a etiqueta.
E fim.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Imperativa

Vem agora me contar as suas coisas. Deixa eu perceber, sem querer, o que te tira o ar e que sua música preferida já não toca mais. Deixa eu entender o que se passa e de onde é que veio essa mania,  que é só sua, de botar umas vogais entre uma frase e outra, pra alongar a palavra. Deixa eu me perder um pouquinho de mim até sentir falta e querer ser eu de novo. Deixa eu me desesperar e faltar à última sessão no cinema e o filme sair de cartaz. Deixa eu chorar sem você ver, bem calado, sem razão.  Ou com. Vem cá. Segura minha mão firme no meio do tumulto que é isso aqui. Entende a minha descoberta de que estamos sós (não é pessoal). Me empresta um pouco a sua vida, seus amigos, quando aqui faltar. Ache engraçada minha falta de jeito, que não tem jeito, vai ser assim. Deixa eu achar que amizades vêm e vão e vão e vão, e o que são os amigos, afinal? Me conta. Deixa eu ser prolixa e não saber explicar o que é que quis dizer. Me mostra o que é ser inteiro. Existe? Fala do amor. Existe? (sim) Fala de Deus. Existe? Deixa eu acreditar. 

sábado, 4 de maio de 2013

Começa assim,

,achando que é bom poder começar.

Começa com ela perguntando por Dindí, querendo saber se Dindí foi mesmo embora. Investigativa, pega na estante o livro com as páginas mais amareladas da biblioteca inteira, só para ver se não se desfez do livro porque ali contavam a história dos dois. Mas era livro de receitas e a pontinha da página 37 estava dobrada para que nunca nunca nunca se esquecesse com quantas claras se faz o merengue cremoso da loja de doces que fechou no ano passado, antes mesmo de fazer sucesso. 

No meio do caminho começa uma música antiga, contando histórias que são de ninguém. Mas emociona, sabe como? Coração palpita mais apressado, que agonia, não dá pra explicar. Não sei se foi o segundo verso ou a bateria que entrou atravessando ou se na hora de atravessar a rua ele apertou a mão um pouquinho mais forte porque estava vindo um ônibus ou se ela percebeu um jeito de rir que ainda não tinha reparado e gostou.